As principais empresas petrolíferas dos Estados Unidos estão a avaliar cuidadosamente as oportunidades de investimento na Venezuela, equilibrando o potencial económico do país com as preocupações manifestadas por investidores quanto à estabilidade política e aos elevados custos envolvidos. A análise antecede uma reunião de alto nível marcada para esta sexta-feira na Casa Branca.

Segundo fontes próximas do processo, grupos como a Chevron e a ConocoPhillips demonstram prudência perante qualquer decisão precipitada, num contexto em que persiste o cepticismo dos mercados relativamente à previsibilidade política venezuelana e à viabilidade financeira de investimentos de grande escala.

Em declarações recentes, o secretário da Energia dos EUA, Chris Wright, reiterou uma afirmação do Presidente Donald Trump, segundo a qual as petrolíferas norte-americanas estariam dispostas a investir milhares de milhões de dólares na reconstrução do sector energético venezuelano, após a saída de Nicolás Maduro do poder no passado sábado.

Contudo, vários investidores do sector energético levantam dúvidas quanto ao risco associado a esses investimentos, apesar de a Venezuela deter as maiores reservas provadas de petróleo bruto do mundo. Entre as principais preocupações estão a fragilidade institucional, a incerteza quanto à durabilidade do governo interino liderado por Delcy Rodríguez e o histórico de nacionalizações no país.

“Os investidores vão exigir sinais claros de estabilidade a longo prazo e um enquadramento fiscal competitivo que mitigue o risco de novas expropriações, algo que a Venezuela já protagonizou no passado”, afirmou David Byrns, gestor de portefólio e analista sénior da American Century Investments, uma das principais investidoras da Chevron e da Exxon Mobil.

Durante reuniões privadas realizadas à margem de uma conferência de energia em Miami, executivos da Chevron e da ConocoPhillips terão evitado comentários detalhados sobre planos para a Venezuela, sublinhando apenas que não pretendem avançar de forma precipitada. Ambas as empresas optaram por não comentar oficialmente.

A expectativa é de que, na reunião desta sexta-feira, Donald Trump incentive os líderes do sector a investir e a impulsionar a produção petrolífera venezuelana. O encontro contará com a presença do secretário da Energia, do secretário de Estado Marco Rubio, do secretário do Interior Doug Burgum e representantes de 17 grandes empresas do sector, incluindo a Exxon Mobil, a ConocoPhillips e, segundo fontes, a Chevron, a espanhola Repsol e as trading houses Vitol e Trafigura.

Em comunicado, a porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers, afirmou que “o povo americano, as empresas de energia e o povo venezuelano beneficiarão enormemente destes investimentos sem precedentes na infraestrutura petrolífera da Venezuela, graças à liderança do Presidente Trump”.

A Chevron mantém actualmente operações no país, ao passo que a Exxon e a Conoco abandonaram a Venezuela há quase duas décadas, após a nacionalização dos seus activos, permanecendo ainda com créditos de milhares de milhões de dólares por receber.

“A tensão reside entre a atratividade geológica e a evidente oportunidade de negócio, por um lado, e os riscos significativos à superfície — incerteza jurídica e reivindicações financeiras pendentes — por outro”, observou Geoffrey Pyatt, antigo secretário-adjunto de Estado para os Recursos Energéticos na administração Biden.

Entretanto, várias embaixadas estrangeiras em Caracas começaram a organizar visitas ao país já na próxima semana, envolvendo representantes de petrolíferas norte-americanas e europeias, segundo duas fontes citadas pela Reuters.

Matthew Sallee, responsável de investimentos da gestora Tortoise Capital, que detém participações na Chevron, afirmou que poderia apoiar novos investimentos caso a empresa demonstrasse retornos atractivos, mas alertou para o estado crítico da infraestrutura venezuelana. “Se a Chevron anunciar investimentos de milhares de milhões de dólares por ano na Venezuela, a nossa reacção provável seria vender”, afirmou.

As empresas de serviços petrolíferos, potenciais beneficiárias iniciais de uma eventual reconstrução da infraestrutura, também adoptam uma postura cautelosa. Trey Adams, presidente da Helmerich & Payne, referiu que, embora a empresa disponha de meios logísticos na Colômbia para apoiar operações na região, será essencial garantir o momento certo e relações sólidas com os clientes desde o início.

Instabilidade política continua a gerar incerteza

Ali Moshiri, antigo presidente da Chevron para África e América Latina e actual CEO da Amos Global Energy, revelou que a sua empresa planeia entrar no mercado venezuelano e já iniciou contactos com entidades do governo norte-americano para assegurar financiamento público. No entanto, sublinhou que qualquer avanço dependerá da definição clara de quem irá gerir o período de transição no país.

“Essa decisão é fundamental. Trata-se de uma condição essencial para os investidores”, afirmou Moshiri.

Apesar de Donald Trump ter declarado que os Estados Unidos pretendem assumir o controlo da Venezuela, permanece incerto como essa estratégia será implementada na prática, sobretudo face às possíveis disputas de poder em Caracas na ausência de Maduro.

Marco Rubio indicou que Washington planeia um processo em três fases: estabilização, recuperação — garantindo acesso das petrolíferas norte-americanas ao país — e, por fim, uma transição política.

Algumas empresas receiam vir a ser pressionadas a regressar rapidamente ao país, sob pena de enfrentarem consequências futuras, alertou Samantha Carl-Yoder, copresidente da área internacional da consultora de lobbying Brownstein Hyatt Farber Schreck.

“As empresas podem sentir que precisam de regressar para obter vantagens noutras frentes. O governo irá usar licenças e autorizações como instrumento de pressão? Haverá incentivos financeiros para quem entrar primeiro? São questões inevitáveis para qualquer petrolífera integrada”, concluiu.

Por João Marcelo de Souza
Fonte: Agência Reuters

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