Um eventual acordo entre Washington e Teerão poderá aliviar a pressão sobre os mercados energéticos, numa altura em que o conflito tem agitado o preço do petróleo e aumentado o nervosismo internacional.
Um memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, destinado a travar a escalada do conflito no Golfo, poderá ser assinado já no próximo domingo, com Genebra a emergir como o local mais provável para a cerimónia, segundo fontes citadas pela Reuters.
De acordo com a informação disponível, o texto do acordo ainda estava a ser afinado na sexta-feira, enquanto continuavam as negociações sobre as exigências iranianas. Teerão insiste em que qualquer entendimento deverá também abranger o fim das hostilidades no Líbano, onde Israel combate o Hezbollah, milícia apoiada pelo Irão.
Segundo uma fonte ocidental, o objectivo era fechar a redacção do memorando até sábado, de modo a permitir a assinatura pelo vice-presidente norte-americano, JD Vance, e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammed Baqer Qalibaf. Embora o local ainda não tivesse sido formalmente confirmado, Genebra aparecia como a opção mais forte.
Na quinta-feira, o Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que os novos ataques ao Irão tinham sido cancelados porque o acordo já estaria praticamente concluído. “Acabámos de chegar a um grande acordo para acabar com a guerra com o Irão”, declarou, na Casa Branca.

No entanto, os termos descritos por responsáveis iranianos apontam para um desfecho amplamente favorável a Teerão. Entre as condições apresentadas estariam a suspensão das sanções ao petróleo iraniano, o desbloqueio de milhares de milhões de dólares em activos congelados e a exigência de cessação das hostilidades em todas as frentes, incluindo o Líbano. As questões nucleares, uma das principais preocupações de Washington, ficariam remetidas para negociações futuras.
Os Estados Unidos procuram garantias de que o Irão nunca desenvolverá uma arma nuclear, algo que Teerão continua a rejeitar, afirmando que o seu programa tem fins exclusivamente civis.
A agência iraniana Mehr avançou ainda que o entendimento incluiria compromissos adicionais por parte de Washington, entre os quais a retirada de forças americanas da proximidade do Irão e a apresentação de um plano de reconstrução económica para o país, avaliado em pelo menos 300 mil milhões de dólares.
O anúncio de um possível acordo teve impacto imediato nos mercados. As bolsas globais registaram ganhos e o Brent recuou mais de 2% na manhã de sexta-feira, numa reacção à expectativa de desanuviamento geopolítico. Para os investidores, a abertura do Estreito de Ormuz, corredor essencial para o transporte de petróleo, é vista como factor decisivo para a estabilização dos preços da energia.

Apesar do optimismo, a situação no terreno continuava tensa. Fontes norte-americanas indicaram que as forças dos EUA abateram dois drones iranianos depois de Teerão ter tentado atingir navios comerciais que cruzavam a zona. A imprensa estatal iraniana, por sua vez, relatou explosões e a tentativa de impedir a passagem de um petroleiro pelo estreito.
A guerra tornou-se também um problema político para a Casa Branca, num contexto em que a subida dos combustíveis alimenta a insatisfação dos eleitores norte-americanos. Alguns republicanos manifestaram preocupação de que o desgaste da guerra possa afectar o partido nas eleições intercalares de Novembro.
No plano regional, eventuais restrições às operações no Líbano poderão ser de difícil aceitação para Israel, aliado de Washington, mas excluído das negociações directas. O gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez questão de sublinhar que Israel não é signatário de qualquer memorando de entendimento com o Irão.
Para países exportadores de petróleo, como Angola, qualquer desanuviamento no Médio Oriente pode traduzir-se numa maior previsibilidade dos preços internacionais e, por conseguinte, num ambiente mais estável para as receitas petrolíferas.
Por João Marcelo de Souza
Via Agência Reuters


