Apesar de não ter chegado às meias-finais, o futebol africano sai da Copa do Mundo de 2026 com motivos para satisfação. O continente viu nove das suas dez selecções ultrapassarem a fase de grupos, assistiu ao brilho inesperado de Cabo Verde e esteve, em vários momentos, muito perto de protagonizar algumas das maiores surpresas do torneio.
O percurso africano terminou na quinta-feira, com a eliminação de Marrocos, mas a sensação dominante é clara: a África competiu de igual para igual com algumas das potências mundiais e deixou a imagem de um futebol cada vez mais sólido, ambicioso e imprevisível.
Cabo Verde conquista o coração do torneio
Se Marrocos foi a referência competitiva, Cabo Verde foi a grande história emocional da prova. Com o guarda-redes Vozinha, de 40 anos, em destaque, os tubarões azuis protagonizaram uma caminhada que cativou adeptos em todo o mundo.
Depois de empatarem com antigos campeões mundiais como Espanha e Uruguai na fase de grupos, os cabo-verdianos levaram a Argentina ao limite nos oitavos-de-final, em Miami. Viraram o resultado por duas vezes e forçaram o prolongamento, antes de sucumbirem por 3-2, num dos jogos mais intensos e memoráveis do torneio.
De regresso ao arquipélago, a equipa foi recebida em festa, com multidões nas ruas a saudarem os jogadores como heróis. O golo de Sidny Lopes Cabral frente à Argentina ficará entre os momentos mais marcantes da competição e simboliza o impacto de Cabo Verde no imaginário futebolístico internacional.
Marrocos volta a liderar a ambição africana

Quatro anos depois de ter feito história no Qatar, ao tornar-se a primeira selecção africana a alcançar as meias-finais, Marrocos voltou a ser o emblema da competitividade do continente. No Mundial disputado no Canadá, México e Estados Unidos, os marroquinos chegaram aos quartos-de-final, onde acabaram travados pela França — tal como em 2022.
Antes de caírem, os marroquinos voltaram a dar mostras da sua qualidade, assustando o Brasil no jogo inaugural da fase de grupos e eliminando a Holanda nos 32 avos de final. A equipa norte-africana confirmou, assim, que já não deve ser vista apenas como um outsider simpático, mas como um candidato regular aos lugares cimeiros.
O que faltou a outras selecções africanas

Nem todas as equipas do continente tiveram o mesmo desfecho. Senegal, República Democrática do Congo e Costa do Marfim deixaram escapar vantagens preciosas nos minutos finais de jogos que pareciam controlados.
Senegal, apontado como um dos conjuntos mais fortes da competição, nunca recuperou totalmente dos erros cometidos nas derrotas iniciais frente à França e à Noruega. O guarda-redes Édouard Mendy assumiu publicamente a frustração da equipa, classificando a eliminação como um fracasso e apelando a uma reflexão profunda sobre o que correu mal.
Já a República Democrática do Congo viveu um dos episódios mais dolorosos do torneio: esteve em vantagem frente à Inglaterra, mas acabou por sofrer a reviravolta nos instantes finais, com Harry Kane a decidir a partida. A Costa do Marfim também sentirá que deixou escapar uma oportunidade valiosa, depois de permitir a Erling Haaland espaço suficiente para fazer a diferença nos minutos decisivos.
Um Mundial de progresso, não de consolação

Apesar das eliminações, o balanço africano é amplamente positivo. A presença de nove selecções na fase a eliminar demonstra evolução, profundidade competitiva e maior maturidade táctica. O continente já não está no torneio apenas para participar; está para disputar, surpreender e vencer.
A única sombra mais pesada recai sobre o Senegal, que parece ter ficado aquém do potencial que apresentava. Ainda assim, o conjunto das prestações africanas reforça uma ideia cada vez mais consensual: o futebol do continente está a aproximar-se do patamar das grandes potências.
O futuro do futebol africano passa por mais provas e mais ambição

O calendário internacional vai manter os holofotes sobre África nos próximos anos. O continente prepara-se agora para duas edições consecutivas da Taça das Nações Africanas: a de 2027, no Quénia, Tanzânia e Uganda, e outra em 2028, após a qual a competição passará a realizar-se de quatro em quatro anos.
E há ainda uma nota simbólica de enorme peso: a próxima Copa do Mundo contará também com presença africana directa, já que Marrocos será co-anfitrião ao lado de Portugal e Espanha. Um sinal claro de que o continente não quer apenas competir dentro de campo — quer também assumir um papel central na organização e no futuro do futebol mundial.
A África sai deste Mundial sem medalhas, mas com um capital precioso: respeito, visibilidade e a certeza de que já pode olhar os gigantes nos olhos.


