LUSAKA, 18 de Agosto (Reuters) — O Presidente da Zâmbia, Hakainde Hichilema, foi reeleito para um segundo mandato, embora o seu principal adversário tenha obtido um desempenho acima do esperado, capitalizando a frustração dos eleitores perante as persistentes dificuldades económicas e o elevado custo de vida.
Os resultados divulgados pela Comissão Eleitoral da Zâmbia nas primeiras horas desta terça-feira indicam que Hichilema conquistou cerca de 60% dos votos válidos, contra 38% obtidos pelo seu principal adversário, Brian Mundubile.
A reeleição garante a Hichilema mais um mandato à frente de um dos países economicamente mais relevantes da África Austral, num momento em que a Zâmbia procura consolidar a recuperação das suas finanças públicas, atrair investimento estrangeiro e transformar a sua riqueza mineral em crescimento mais abrangente para a população.
Esta foi a sétima candidatura de Hichilema à Presidência. O resultado era amplamente esperado, devido às vantagens associadas ao exercício do poder e à visibilidade proporcionada pelo cargo. Para Mundubile, contudo, tratou-se da primeira tentativa de chegar à chefia do Estado.
Hichilema, de 64 anos, conduziu a campanha com base no seu historial económico desde que assumiu a Presidência, em 2021, durante uma grave crise da dívida agravada pelos efeitos da pandemia. O seu Governo procurou restabelecer a confiança dos credores, avançar com a reestruturação da dívida externa e melhorar os principais indicadores macroeconómicos.
Mundubile, por sua vez, apresentou uma mensagem centrada no impacto limitado dessa recuperação na vida quotidiana dos cidadãos. Segundo a oposição, a descida da inflação e os progressos nas negociações financeiras ainda não se traduziram em melhorias suficientes nos rendimentos das famílias, no acesso a bens essenciais e nas oportunidades de emprego.
A pressão sobre o custo de vida tornou-se um dos principais temas da campanha. Apesar dos sinais positivos nas contas públicas e da recuperação da actividade económica, muitos zambianos continuam a enfrentar preços elevados, dificuldades no acesso a serviços básicos e um mercado de trabalho com capacidade limitada para absorver a população jovem.
A Zâmbia, um dos maiores produtores africanos de cobre, também se encontra no centro da competição estratégica entre a China e os Estados Unidos pelos chamados minerais críticos. O cobre é considerado essencial para a transição energética, para a electrificação dos transportes e para o desenvolvimento de tecnologias ligadas às energias renováveis.
Para investidores e parceiros internacionais, o novo mandato de Hichilema será acompanhado de perto. A capacidade do Governo para garantir estabilidade política, cumprir compromissos financeiros, melhorar o ambiente de negócios e aumentar o valor acrescentado da indústria mineira será determinante para o desempenho económico do país nos próximos anos.
Pós-eleição marcado por tensão

Após uma preparação relativamente tranquila até à votação de 13 de Agosto, as tensões aumentaram rapidamente no período que se seguiu ao acto eleitoral.
Na noite das eleições, as autoridades detiveram 11 pessoas, incluindo figuras importantes da oposição, numa operação que envolveu uma troca de tiros e ocorreu enquanto Mundubile se encontrava presente.
No dia seguinte, a Comissão Eleitoral suspendeu a contagem dos votos durante várias horas, na sequência de relatos de violência contra funcionários eleitorais e do alegado roubo de boletins de voto.
Mundubile afirmou ter recebido informações sobre uma possível alteração dos formulários com os resultados de várias assembleias de voto e solicitou uma investigação independente urgente. O grupo político de Hichilema rejeitou as acusações e afirmou que o candidato da oposição estava a divulgar informações falsas.
A oposição deverá contestar os resultados e poderá avançar com um recurso judicial, embora seja improvável que a iniciativa tenha êxito, afirmou Greg Musiker, analista especializado na Zâmbia da empresa de consultoria Signal Risk.
“Embora seja possível que ocorram episódios localizados de violência política nos próximos dias, não se prevê uma agitação generalizada”, acrescentou Musiker.
A forma como o Governo gerir o período pós-eleitoral poderá ser tão importante quanto o próprio resultado das urnas. A preservação do diálogo com a oposição, a transparência na resolução das alegações de irregularidades e a manutenção da estabilidade serão essenciais para evitar que a disputa política se transforme num factor de risco para a economia e para a confiança dos investidores.
Com a reeleição assegurada, Hichilema terá agora de responder à principal exigência dos eleitores: transformar a recuperação dos indicadores económicos em benefícios concretos para as famílias e empresas zambianas. Para o sector empresarial, o desafio passa por acelerar reformas, reduzir os custos de operação e criar condições para que o crescimento sustentado ultrapasse o desempenho das estatísticas macroeconómicas.
Fonte: Agência Reuters
Edição: João Marcelo de Souza


