Sábado, Setembro 26, 2026

Cláudia Viana: “O turismo deve ser financiado como um ecossistema”

A Directora Executiva da Banca do Standard Bank defende uma abordagem integrada ao financiamento do turismo: apoiar não apenas hotéis e infra-estruturas, mas também empresas, produtores e serviços ligados a cada destino. O objectivo é converter o potencial turístico de Angola em emprego, rendimento local e diversificação económica.

Luanda — No Angola Economic Forum (AEF), Cláudia Viana, Directora Executiva da Banca do Standard Bank, deixou uma mensagem clara para empresários, investidores e decisores: o turismo não se desenvolve de forma isolada e, por isso, o seu financiamento também não deve ficar circunscrito a projectos hoteleiros ou a grandes infra-estruturas.

Para produzir impacto económico duradouro, defendeu, é necessário olhar para a cadeia de valor na sua totalidade — dos alojamentos e restaurantes aos operadores turísticos, transportadores, produtores agrícolas e pequenos negócios que dão vida à experiência de cada visitante.

“Não estamos só a dizer que vamos financiar o hotel ou a infra-estrutura; é financiar todo o ecossistema à volta, afirmou.”

A ideia tem implicações concretas para a forma como o sector pode crescer em Angola. Um destino turístico não se constrói apenas com quartos disponíveis ou estradas de acesso. Depende também da capacidade de mobilizar fornecedores, criar serviços de qualidade, valorizar a produção local e assegurar que uma parte significativa do valor gerado permanece nas comunidades.

Uma cadeia de valor que começa no destino

Quando um visitante chega a um destino, o seu contributo económico não se limita ao alojamento. A deslocação activa uma rede de actividades: transporte, restauração, comércio, visitas guiadas, cultura e aquisição de produtos locais. Cada uma dessas ligações pode representar uma oportunidade de negócio e uma fonte adicional de rendimento.

Cláudia Viana ilustrou essa dinâmica com um exemplo simples: um visitante pode fazer uma refeição num restaurante e consumir produtos da região, contribuindo, mesmo indirectamente, para a actividade de produtores agrícolas e comerciantes locais. Assim, o investimento no turismo pode estimular sectores que, à primeira vista, não são identificados como parte da actividade turística.

“Tudo acaba por ser um ecossistema, resumiu.”

Esta perspectiva aponta para uma oportunidade estratégica: aproximar os projectos turísticos das empresas e dos produtores existentes nos territórios. Para os empresários, isso significa que o potencial de investimento não está apenas na criação de novas unidades hoteleiras, mas também na oferta de bens e serviços capazes de responder às necessidades de cada destino.

Emprego, rendimento e desenvolvimento local

O valor do turismo, na leitura da responsável do Standard Bank, está também na sua capacidade de gerar actividade em vários sectores em simultâneo. Hotelaria e restauração são componentes centrais, mas o impacto pode estender-se à agricultura, ao artesanato, à cultura, à logística e ao comércio.

Quando essa articulação funciona, o turismo pode contribuir para criar emprego, ampliar oportunidades para empresas locais e melhorar as condições de vida das comunidades anfitriãs. Para que esse efeito se concretize, porém, é fundamental que os negócios que integram a cadeia de valor estejam preparados para fornecer produtos e serviços com consistência e qualidade.

A referência à taxa turística foi apresentada neste contexto como uma possibilidade de reinvestimento no próprio território. A sua eficácia, salientou-se, dependerá de os recursos serem aplicados de forma visível e útil, tanto para as populações como para a qualidade da experiência proporcionada aos visitantes.

O potencial do sector e o papel da banca

Questionada sobre a forma como o sector é encarado pelas instituições financeiras, Cláudia Viana rejeitou uma leitura limitada ao risco. O turismo, afirmou, deve ser considerado uma actividade com potencial de crescimento e um contributo possível para a diversificação da economia.

“É um sector com bastante potencial ao nível da diversificação da economia, declarou.”

A responsável recordou que há países da região onde o turismo representa uma componente relevante do Produto Interno Bruto, apontando para a possibilidade de Angola valorizar os seus recursos naturais, culturais e territoriais. A oportunidade, contudo, exige mais do que atractivos: depende da capacidade de desenvolver empresas, serviços e condições que permitam transformar esses recursos numa actividade económica estruturada.

Nesse processo, o papel da banca não se esgota na concessão de crédito. As instituições financeiras podem actuar como facilitadoras do crescimento, apoiando empresas na sua preparação e contribuindo para que os projectos ganhem escala, robustez e sustentabilidade.

A organização dos negócios, a capacidade de gestão e a existência de soluções financeiras ajustadas às especificidades de cada cadeia de valor são, por isso, dimensões relevantes para o desenvolvimento do sector. Angola tem caminho a percorrer, mas, na perspectiva partilhada no AEF, dispõe de espaço significativo para crescer.

Financiar o turismo é investir numa economia local completa

A mensagem de Cláudia Viana dirige-se a todos os intervenientes que procuram posicionar-se numa actividade com potencial para mobilizar diferentes áreas da economia. Financiar o turismo é apoiar o hotel, mas também as empresas e os profissionais que produzem, transportam, cozinham, recebem, vendem e criam experiências.

É nessa ligação entre investimento, fornecedores e comunidades que o turismo pode afirmar-se para além do lazer: como uma plataforma de criação de emprego, valorização da produção nacional e diversificação económica.

Edição João Marcelo de Souza

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