Sexta-feira, Junho 12, 2026

Genebra surge como palco provável para memorando de paz entre os EUA e o Irão

Um eventual acordo entre Washington e Teerão poderá aliviar a pressão sobre os mercados energéticos, numa altura em que o conflito tem agitado o preço do petróleo e aumentado o nervosismo internacional.

Um memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, destinado a travar a escalada do conflito no Golfo, poderá ser assinado já no próximo domingo, com Genebra a emergir como o local mais provável para a cerimónia, segundo fontes citadas pela Reuters.

De acordo com a informação disponível, o texto do acordo ainda estava a ser afinado na sexta-feira, enquanto continuavam as negociações sobre as exigências iranianas. Teerão insiste em que qualquer entendimento deverá também abranger o fim das hostilidades no Líbano, onde Israel combate o Hezbollah, milícia apoiada pelo Irão.

Segundo uma fonte ocidental, o objectivo era fechar a redacção do memorando até sábado, de modo a permitir a assinatura pelo vice-presidente norte-americano, JD Vance, e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammed Baqer Qalibaf. Embora o local ainda não tivesse sido formalmente confirmado, Genebra aparecia como a opção mais forte.

Na quinta-feira, o Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que os novos ataques ao Irão tinham sido cancelados porque o acordo já estaria praticamente concluído. “Acabámos de chegar a um grande acordo para acabar com a guerra com o Irão”, declarou, na Casa Branca.

Embarcações ancoradas no Estreito de Ormuz, vistas de Musandam, Omã, em 11 de junho de 2026. REUTERS/Stringer

No entanto, os termos descritos por responsáveis iranianos apontam para um desfecho amplamente favorável a Teerão. Entre as condições apresentadas estariam a suspensão das sanções ao petróleo iraniano, o desbloqueio de milhares de milhões de dólares em activos congelados e a exigência de cessação das hostilidades em todas as frentes, incluindo o Líbano. As questões nucleares, uma das principais preocupações de Washington, ficariam remetidas para negociações futuras.

Os Estados Unidos procuram garantias de que o Irão nunca desenvolverá uma arma nuclear, algo que Teerão continua a rejeitar, afirmando que o seu programa tem fins exclusivamente civis.

A agência iraniana Mehr avançou ainda que o entendimento incluiria compromissos adicionais por parte de Washington, entre os quais a retirada de forças americanas da proximidade do Irão e a apresentação de um plano de reconstrução económica para o país, avaliado em pelo menos 300 mil milhões de dólares.

O anúncio de um possível acordo teve impacto imediato nos mercados. As bolsas globais registaram ganhos e o Brent recuou mais de 2% na manhã de sexta-feira, numa reacção à expectativa de desanuviamento geopolítico. Para os investidores, a abertura do Estreito de Ormuz, corredor essencial para o transporte de petróleo, é vista como factor decisivo para a estabilização dos preços da energia.

Estreito de Ormuz, vista de satélite. REUTERS/Stringer

Apesar do optimismo, a situação no terreno continuava tensa. Fontes norte-americanas indicaram que as forças dos EUA abateram dois drones iranianos depois de Teerão ter tentado atingir navios comerciais que cruzavam a zona. A imprensa estatal iraniana, por sua vez, relatou explosões e a tentativa de impedir a passagem de um petroleiro pelo estreito.

A guerra tornou-se também um problema político para a Casa Branca, num contexto em que a subida dos combustíveis alimenta a insatisfação dos eleitores norte-americanos. Alguns republicanos manifestaram preocupação de que o desgaste da guerra possa afectar o partido nas eleições intercalares de Novembro.

No plano regional, eventuais restrições às operações no Líbano poderão ser de difícil aceitação para Israel, aliado de Washington, mas excluído das negociações directas. O gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez questão de sublinhar que Israel não é signatário de qualquer memorando de entendimento com o Irão.

Para países exportadores de petróleo, como Angola, qualquer desanuviamento no Médio Oriente pode traduzir-se numa maior previsibilidade dos preços internacionais e, por conseguinte, num ambiente mais estável para as receitas petrolíferas.

Por João Marcelo de Souza
Via Agência Reuters

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