Oferta pública de venda de 15% do capital da operadora foi subscrita em 120,72% e permitiu ao Estado arrecadar 300,3 mil milhões de kwanzas
A Unitel, maior operadora de telecomunicações de Angola, foi alvo de um ciberataque que provocou a interrupção dos serviços de voz, dados móveis e Internet em várias zonas do país, poucas horas antes da estreia das suas acções na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA).
O incidente ocorreu num momento particularmente relevante para a empresa e para o mercado de capitais angolano, tendo em conta a conclusão da oferta pública de venda de 15% do capital da operadora, uma das principais iniciativas do programa do Executivo destinado a dinamizar o investimento privado, ampliar a participação dos cidadãos no mercado financeiro e reduzir, de forma gradual, a presença directa do Estado na economia.
Em comunicado divulgado na terça-feira, a Unitel informou que detectou o ataque às 02h20, hora de Angola, correspondente à 01h20 GMT. Segundo a empresa, a ofensiva afectou parte da sua infra-estrutura tecnológica e provocou a interrupção de serviços de telecomunicações em todo o território nacional.
“Os serviços continuam afectados neste momento. As equipas técnicas estão a trabalhar para restabelecer a normalidade com a maior brevidade possível”, informou a operadora.
A empresa não revelou, até ao momento, a natureza específica do ataque, os responsáveis pela intrusão ou o prazo necessário para a reposição integral dos serviços. A Unitel indicou, contudo, que os seus especialistas continuam empenhados na recuperação dos sistemas e na protecção da rede, garantindo que a situação está a ser acompanhada pelas estruturas competentes.
Com uma base superior a 21 milhões de clientes, num país com uma população estimada em cerca de 39 milhões de habitantes, a Unitel desempenha um papel central na economia digital angolana. A operadora assegura serviços essenciais para cidadãos, empresas, instituições públicas e sectores estratégicos, como a banca, os transportes, o comércio e a administração pública.
IPO supera expectativas do mercado
Apesar do constrangimento provocado pelo ciberataque, a operação de venda de acções da Unitel registou uma procura superior à oferta. O Estado angolano arrecadou 300,3 mil milhões de kwanzas, equivalentes a aproximadamente 329 milhões de dólares norte-americanos, com a alienação de uma participação de 15% na operadora.
Foram colocadas à venda 7,5 milhões de acções, ao preço final de 40.040 kwanzas por título, correspondente ao limite superior da faixa de preço inicialmente indicada. A procura total atingiu 362,1 mil milhões de kwanzas, traduzindo uma taxa de subscrição de 120,72%.
Os resultados finais, divulgados na segunda-feira, confirmam o forte interesse dos investidores nacionais e internacionais pela operação. Dos 18.571 pedidos submetidos durante o período de oferta, realizado entre 6 e 24 de Julho, foram aceites 17.549.
A negociação das acções da Unitel na BODIVA estava prevista para começar a 29 de Julho, consolidando uma das mais importantes operações do mercado de capitais angolano desde a criação da bolsa. A operação representa também um marco para a estratégia de diversificação das fontes de financiamento das empresas e de reforço da transparência na gestão dos activos do Estado.
A elevada procura é interpretada pelo Executivo como um sinal de confiança dos investidores na economia angolana e no potencial de crescimento do sector das telecomunicações. A entrada da Unitel no mercado bolsista deverá contribuir para aumentar a visibilidade da empresa, promover uma maior disciplina de gestão e criar novas oportunidades de participação para investidores institucionais e particulares.
Estado reforça programa de privatizações
A oferta pública de venda da Unitel insere-se num programa mais amplo de reformas económicas promovido pelo Governo angolano. O objectivo é estimular o investimento privado, melhorar a eficiência das empresas, desenvolver o mercado de capitais e reduzir o peso do Estado na actividade empresarial, preservando, simultaneamente, o interesse estratégico nacional.
A Unitel é uma das empresas de referência da economia angolana e uma das marcas mais reconhecidas do país. A sua colocação em bolsa representa, por isso, um passo de grande relevância para o fortalecimento do mercado financeiro e para a criação de instrumentos de investimento acessíveis a um número mais amplo de cidadãos.
O produtor de petróleo da África Austral tem registado ainda um número limitado de empresas cotadas na BODIVA desde o lançamento da bolsa, em 2022. Neste contexto, a operação da Unitel assume uma importância adicional, por poder incentivar outras empresas de dimensão relevante a recorrerem ao mercado de capitais para captar financiamento e diversificar a sua estrutura accionista.
Segurança digital como prioridade estratégica
O ciberataque sofrido pela Unitel evidencia, ao mesmo tempo, a crescente importância da cibersegurança para as empresas que operam infra-estruturas críticas. À medida que Angola avança na digitalização dos serviços públicos, financeiros e empresariais, a protecção das redes de telecomunicações torna-se essencial para garantir a continuidade da actividade económica.
A capacidade de resposta da Unitel, a coordenação com as autoridades e a recuperação dos sistemas serão determinantes para restabelecer plenamente a confiança dos clientes e dos parceiros. O episódio reforça igualmente a necessidade de investimentos permanentes em tecnologia, sistemas de prevenção, redundância operacional e formação de especialistas nacionais.
Mesmo perante o incidente, os resultados da oferta pública demonstram a relevância estratégica da Unitel e a confiança depositada na empresa e no processo de transformação económica em curso no país. A estreia na BODIVA deverá marcar uma nova etapa para a operadora, para o mercado de capitais e para a agenda de participação privada na economia angolana.


