Do Atlântico ao Kalahari: Angola e Botswana abrem uma nova rota de negócios
Revista Executivo | Luanda, 8 de Setembro de 2026
Em entrevista à Revista Executivo, duas responsáveis do Botswana Investment and Trade Centre apresentaram uma agenda pragmática para a cooperação bilateral: carne bovina e pescado, petróleo e diamantes, tecnologia e indústria transformadora — suportados por corredores de transporte eficientes, maior conectividade aérea e procedimentos aduaneiros harmonizados.
O primeiro Fórum Económico Angola–Botswana reuniu empresários, investidores e decisores de dois países que partilham a mesma região, mas continuam a comerciar muito abaixo do seu potencial económico.
Realizado no Hotel InterContinental, em Luanda, no contexto da visita de Estado do Presidente do Botswana, Duma Boko, o Fórum contou com uma participação anunciada de mais de 60 empresas — aproximadamente 20 do Botswana e mais de 40 de Angola — representando sectores como agro-negócio, minas, turismo, transportes e logística.
Organizado pela Agência de Investimento Privado e Promoção das Exportações de Angola, em coordenação com as instituições do Botswana, o encontro procurou criar uma relação directa entre produtores, investidores e potenciais compradores. O objectivo foi transformar a sólida aproximação política entre Luanda e Gaborone em parcerias comerciais e projectos de investimento concretos.
A primeira missão empresarial do Botswana em Angola
Trunklinah Gabonthone, Directora Executiva de Promoção do Investimento do Botswana Investment and Trade Centre — BITC — começou por destacar o carácter inédito da iniciativa.
“Temos vindo a Angola principalmente para participar em exposições, mas esta é a primeira vez que realizamos uma missão empresarial. A nossa expectativa é que, depois deste encontro, vejamos empresas dos dois países a trabalhar em conjunto.”
Gabonthone identificou uma área imediata de complementaridade: a entrada de carne bovina do Botswana no mercado angolano e o fornecimento de pescado angolano ao Botswana.
A delegação empresarial do Botswana não se limitou, contudo, ao sector alimentar. Incluiu igualmente empresas ligadas às tecnologias de informação e comunicação, indústria transformadora, energia, petróleo e derivados, além da Botswana Meat Commission.
“Estamos verdadeiramente empenhados em colaborar com as empresas angolanas”, afirmou Gabonthone.
As suas declarações assinalam uma mudança importante. O Botswana não está a aproximar-se de Angola apenas à procura de clientes. As suas empresas procuram também parceiros industriais, distribuidores, conhecimento do mercado e oportunidades de investimento conjunto.
Economias complementares
Para a Dra. Margaret Sengwaketse, Directora Executiva de Inteligência de Negócios do BITC, a dimensão do mercado angolano constitui, por si só, um argumento económico relevante.
Com uma população de aproximadamente 2,5 milhões de habitantes, o Botswana necessita de olhar para além do seu mercado interno para alcançar maior escala comercial e industrial. Angola, pelo contrário, oferece uma base de consumidores consideravelmente superior, uma extensa costa atlântica e recursos capazes de sustentar novas cadeias regionais de valor.
“Angola é um grande mercado. Para um país com a dimensão do Botswana, as exportações representam uma importante oportunidade.”
Sengwaketse enquadrou a aproximação entre os dois países numa perspectiva regional mais ampla. Angola e Botswana são membros da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral — SADC — e poderão beneficiar da implementação progressiva da Zona de Comércio Livre Continental Africana.
O desafio consiste em transformar a proximidade geográfica numa integração económica efectiva.
Além da carne bovina e do pescado, Sengwaketse identificou oportunidades nos sectores agrícola, petrolífero e diamantífero. O Botswana é importador líquido de petróleo e derivados, enquanto Angola possui recursos substanciais e uma capacidade crescente neste domínio.
Os dois países encontram igualmente uma importante convergência nos diamantes. A cooperação poderá ultrapassar a extracção e abranger transformação, lapidação, certificação, distribuição, comercialização internacional e desenvolvimento de produtos de maior valor acrescentado.
Estas prioridades empresariais acompanham os sinais políticos transmitidos durante a visita do Presidente Duma Boko. O Presidente João Lourenço defendeu maior coordenação entre os países africanos produtores de diamantes e manifestou abertura à possibilidade de o Botswana adquirir uma participação relevante no capital da Refinaria do Lobito, concebida como uma infra-estrutura de dimensão regional.
O verdadeiro negócio chama-se conectividade
As oportunidades comerciais são evidentes. O principal obstáculo encontra-se na distância económica criada por infra-estruturas incompletas, ligações aéreas limitadas, elevados custos logísticos e procedimentos fronteiriços ainda pouco harmonizados.
“África é vasta, mas existe um enorme potencial para comerciarmos entre nós se melhorarmos os corredores de transporte, seja através de estradas, caminhos-de-ferro ou outros meios de ligação”, afirmou Sengwaketse.”
A responsável chamou igualmente a atenção para uma das grandes contradições da integração africana: em determinadas rotas, continua a ser necessário sair do continente para viajar entre dois países africanos.
“Se melhorarmos a conectividade aérea, também impulsionaremos o investimento e o comércio”, acrescentou.
As infra-estruturas físicas representam apenas uma parte da equação. Sengwaketse destacou também a importância de alinhar os procedimentos aduaneiros, as normas técnicas e os requisitos aplicáveis ao comércio entre os diferentes mercados africanos.
O Botswana apresenta já um exemplo regional relevante. A Ponte de Kazungula reduziu os tempos de travessia entre o Botswana e a Zâmbia e permitiu o funcionamento de um posto fronteiriço de paragem única. Em Fevereiro de 2026, os dois governos formalizaram a criação da Autoridade da Ponte de Kazungula, reforçando o compromisso com a gestão conjunta e sustentável desta ligação estratégica. “Governo do Botswana” (https://www.gov.bw/botswana-zambia-sign-landmark-deal-formalise-kazungula-bridge-authority)
O Botswana procura igualmente reforçar as suas ligações à Namíbia através do eixo Trans-Kalahari e utiliza uma plataforma logística seca associada ao Porto de Walvis Bay para facilitar o movimento das importações e exportações.
Estas iniciativas demonstram como as infra-estruturas, a gestão fronteiriça e a coordenação institucional podem reduzir os obstáculos ao comércio e transformar países vizinhos num espaço económico progressivamente integrado.
Acesso a um mercado africano de maior dimensão
A Revista Executivo questionou também as responsáveis do BITC sobre a possibilidade de ligar o espaço económico da África Austral aos mercados da África Ocidental, Oriental e Central.
Sengwaketse reconheceu que o acesso ao mercado continental representa uma oportunidade significativa, sobretudo para países com populações internas relativamente reduzidas.
Para o Botswana, as exportações são fundamentais para aumentar a escala da produção, atrair investimento industrial e criar emprego sustentável. Para Angola, esta mesma lógica continental reforça a possibilidade de o país funcionar como plataforma atlântica para a entrada, transformação e distribuição de mercadorias.
A concretização desta ambição exigirá corredores de transporte que não terminem nas fronteiras nacionais. Estradas, caminhos-de-ferro, portos, aeroportos, plataformas logísticas e sistemas aduaneiros terão de funcionar como componentes de uma rede integrada.
Sem essa conectividade, a Zona de Comércio Livre Continental Africana permanecerá essencialmente um enquadramento jurídico. Com ela, poderá transformar-se num mercado funcional para empresas, investidores e consumidores.
Da aproximação política a uma carteira de projectos
O sucesso do Fórum Económico Angola–Botswana não será medido pelo número de discursos realizados ou cartões profissionais trocados. Será avaliado pelos contratos celebrados, investimentos mobilizados, empresas constituídas, mercadorias transportadas e postos de trabalho criados.
A próxima etapa deverá, por isso, transformar as manifestações de interesse em projectos bancáveis, cada um com parceiros claramente identificados, volumes comerciais, requisitos técnicos e sanitários, soluções logísticas, estruturas de financiamento, mecanismos de repartição de riscos e calendários de execução.
Angola pode oferecer dimensão de mercado, recursos naturais, portos atlânticos e acesso estratégico ao oceano. O Botswana acrescenta experiência na produção pecuária, nas cadeias de valor dos diamantes, na inteligência de negócios e na logística regional.
A oportunidade está claramente identificada. O que se exige agora é capacidade de execução.
O mapa económico está traçado. O próximo passo será construir as rotas através das quais o investimento e o comércio poderão circular.
Texto: Redação Revista Executivo
Foto: Revista Executivo
Edição: João Marcelo de Souza
Nota editorial: a entrevista foi realizada em inglês. As declarações foram ligeiramente editadas para maior clareza, sem alteração do respectivo conteúdo ou sentido. Os nomes e cargos das responsáveis foram confirmados através do “Botswana Investment and Trade Centre” (https://www.bitc.co.bw/about/organisational-structure/executive-committee/).
Versão em Inglês:
ECONOMIC COOPERATION | SOUTHERN AFRICA
From the Atlantic to the Kalahari: Angola and Botswana Open a New Business Route
Revista Executivo | Luanda, 8 September 2026
In an interview with Revista Executivo, two senior representatives of the Botswana Investment and Trade Centre outlined a pragmatic agenda for bilateral cooperation: beef and fish, petroleum and diamonds, technology and manufacturing — supported by efficient transport corridors, stronger air connectivity and harmonised customs procedures.
The inaugural Angola–Botswana Economic Forum brought together business leaders, investors and decision-makers from two countries that share the same region but continue to trade well below their economic potential.
Held at the Hotel InterContinental in Luanda during the state visit of Botswana’s President, Duma Boko, the Forum had an announced participation of more than 60 companies — approximately 20 from Botswana and over 40 from Angola — representing sectors including agribusiness, mining, tourism, transport and logistics.
Organised by Angola’s Private Investment and Export Promotion Agency, in coordination with its Botswana counterparts, the event sought to create direct engagement between producers, investors and potential buyers. The objective was to translate the strong political relationship between Luanda and Gaborone into tangible commercial partnerships and investment projects.
Botswana’s First Business Mission to Angola
Trunklinah Gabonthone, Executive Director for Investment Promotion at the Botswana Investment and Trade Centre — BITC — began by underlining the unprecedented nature of the initiative.
“We have been coming to Angola mainly for exhibitions, but this is the first time we have undertaken a business mission. Our expectation is that, following this engagement, we will see companies from both countries working together.”
Gabonthone identified an immediate area of complementarity: Botswana beef entering the Angolan market and Angolan fish being supplied to Botswana.
The Botswana delegation was not, however, limited to the food sector. It also included companies operating in information and communication technology, manufacturing, petroleum-related industries and meat production, including the Botswana Meat Commission.
“We are genuinely looking forward to collaborating with Angolan companies,” Gabonthone said.
Her remarks signal an important shift. Botswana is not approaching Angola merely in search of customers. Its companies are also seeking industrial partners, distributors, market knowledge and opportunities for joint investment.
Complementary Economies
For Dr Margaret Sengwaketse, Executive Director for Business Intelligence at BITC, the size of the Angolan market is, in itself, a compelling economic argument.
With a population of approximately 2.5 million, Botswana must look beyond its domestic market to achieve greater commercial and industrial scale. Angola, by contrast, offers a substantially larger consumer base, an extensive Atlantic coastline and resources capable of supporting new regional value chains.
“Angola is a large market. For a country the size of Botswana, exports represent a major opportunity.”
Sengwaketse placed the emerging relationship within a broader regional framework. Both countries are members of the Southern African Development Community — SADC — and stand to benefit from the progressive implementation of the African Continental Free Trade Area.
The challenge is to transform geographical proximity into effective economic integration.
In addition to beef and fish, Sengwaketse identified opportunities in agriculture, petroleum and diamonds. Botswana is a net importer of petroleum and petroleum-related products, while Angola possesses substantial resources and growing capabilities in this sector.
Both countries are also major diamond producers. Cooperation could therefore extend beyond extraction to include processing, cutting and polishing, certification, distribution and the development of higher-value products across the diamond value chain.
These commercial priorities are consistent with the political signals issued during President Duma Boko’s visit. President João Lourenço called for greater coordination among African diamond-producing countries and expressed support for the prospect of Botswana acquiring a significant equity interest in the Lobito Refinery, which is being developed as an infrastructure project of regional importance.
The Real Business Is Connectivity
The commercial opportunities are evident. The principal obstacle lies in the economic distance created by incomplete infrastructure, limited air services, high logistics costs and insufficiently harmonised border procedures.
“Africa is vast, but there is significant potential for us to trade with one another if we improve our transport corridors, whether by road, rail or other modes of transport,” Sengwaketse said.”
She also drew attention to one of the central contradictions of African integration: on certain routes, travellers still need to leave the continent in order to reach another African country.
“If we improve air connectivity, that would also boost investment and trade,” she added.
Physical infrastructure is only part of the equation. Sengwaketse also stressed the importance of aligning customs procedures, technical standards and trade-related requirements across African markets.
Botswana already offers a practical regional example. The Kazungula Bridge has reduced crossing times between Botswana and Zambia and enabled the operation of a one-stop border post. In February 2026, the two governments formally established the Kazungula Bridge Authority, reinforcing their commitment to the joint and sustainable management of this strategic connection. “Government of Botswana” (https://www.gov.bw/botswana-zambia-sign-landmark-deal-formalise-kazungula-bridge-authority)
Botswana is also working to strengthen its connections with Namibia through the Trans-Kalahari axis and uses a dry-port facility linked to the Port of Walvis Bay to facilitate the movement of imports and exports.
These initiatives demonstrate how infrastructure, border management and institutional coordination can reduce commercial friction and turn neighbouring markets into an integrated economic space.
Accessing a Larger African Market
Revista Executivo also asked the BITC representatives about the possibility of connecting the Southern African economic space with the markets of West, East and Central Africa.
Sengwaketse recognised that access to Africa’s broader consumer market represents a significant opportunity, particularly for countries with relatively small domestic populations.
For Botswana, exports are essential to achieving greater production volumes, attracting industrial investment and creating sustainable employment. For Angola, the same continental logic strengthens the country’s potential role as an Atlantic gateway for the entry, transformation and distribution of goods.
Realising this ambition will require transport corridors that do not end at national borders. Roads, railways, ports, airports, logistics platforms and customs systems must operate as parts of an integrated network.
Without that connectivity, the African Continental Free Trade Area will remain largely a legal framework. With it, the agreement can become a functioning market for companies, investors and consumers.
From Political Momentum to a Project Pipeline
The success of the Angola–Botswana Economic Forum will not ultimately be measured by the number of speeches delivered or business cards exchanged. It will be assessed through contracts concluded, investments mobilised, companies established, goods transported and jobs created.
The next stage should therefore convert expressions of interest into bankable projects, each with clearly identified partners, commercial volumes, technical and sanitary requirements, logistics solutions, financing structures, risk-allocation mechanisms and implementation schedules.
Angola can offer market scale, natural resources, Atlantic ports and strategic access to the ocean. Botswana brings experience in livestock production, diamond value chains, business intelligence and regional logistics.
The opportunity is clearly visible. What is now required is disciplined execution.
The economic map has been drawn. The next task is to build the routes through which investment and trade can travel.


