Carlos Cunha, do 7 Studios ApartHotel, defende uma visão de turismo integrada para o Namibe: mais conforto e previsibilidade para o visitante, circuitos com experiências locais e uma articulação real entre alojamento, transportes, operadores e comunidades.
Revista Executivo — Como nasceu o 7 Studios?
Carlos Cunha — O 7 Studios nasceu da necessidade de oferecer no Namibe uma opção de alojamento confortável, funcional e mais próxima daquilo que o visitante procura actualmente. A ideia é que o hóspede encontre não apenas um lugar para dormir, mas um espaço onde se sinta bem recebido e tenha facilidade em organizar a sua estadia.
Que perfil de hóspedes recebe e qual é, em média, a duração da estadia?
Temos um perfil muito diversificado: pessoas em viagem de trabalho, turistas, famílias e visitantes que utilizam o Namibe como ponto de passagem para conhecer outros destinos do Sul de Angola.
A duração depende muito do motivo da viagem. Para quem está em trabalho, a permanência tende a ser mais curta. Já os turistas podem ficar mais noites quando encontram programas que combinem alojamento com experiências locais.

O que deve encontrar quem chega ao Namibe depois de uma viagem longa ou de uma expedição?
Conforto, segurança e facilidade. Procuramos assegurar um atendimento flexível, informação clara e apoio ao hóspede na organização da próxima etapa da sua viagem.
Existe também uma oportunidade importante de trabalhar com operadores turísticos e empresas de transporte, facilitando transfers, excursões e ligações com outros pontos da província e do Sul de Angola.
Quais são os factores essenciais para garantir qualidade e confiança no alojamento?
A qualidade começa por aquilo que muitas vezes parece simples: água, energia, limpeza, manutenção e capacidade de responder rapidamente quando surge um problema.
Para nós, confiança também significa transparência. O hóspede deve saber claramente o que está a reservar, quais são as condições de pagamento e cancelamento e quais os serviços incluídos. Num destino que ainda está a desenvolver a sua oferta turística, cumprir aquilo que foi prometido é fundamental.
Qual é hoje o principal desafio do turismo no Namibe?
Fazer com que o Namibe deixe de ser apenas um local de passagem e passe a ser um destino onde vale a pena ficar alguns dias.
Uma forma de o conseguir é criar programas que combinem alojamento com experiências: visitas ao deserto, Lagoa do Arco, Parque Nacional do Iona, Tchitundo-Hulo, litoral, gastronomia e actividades culturais. O visitante pode chegar, ficar no 7 Studios e ter logo organizado um programa de dois ou três dias pela região.
Como pode o crescimento turístico beneficiar a população local?
A nossa intenção deve ser privilegiar, sempre que possível, a contratação e a formação de pessoas da região. No turismo, a qualidade do serviço depende muito das pessoas. Formação em atendimento, línguas, hotelaria e conhecimento do destino é essencial.
Também acreditamos que o crescimento do turismo deve beneficiar outros negócios locais: restaurantes, transportadoras, guias, produtores, artesãos, empresas de limpeza, manutenção e outros fornecedores. Quanto maior for a ligação entre o alojamento e estes serviços, maior será o impacto económico na comunidade.
Que impacto têm as ligações aéreas Luanda–Namibe?
Actualmente, a ligação directa Luanda–Namibe é operada pela TAAG, com três frequências semanais publicadas e uma duração aproximada de uma hora e quarenta e cinco minutos. Uma maior regularidade e horários que permitam aproveitar melhor o primeiro e o último dia da viagem poderiam contribuir para aumentar a procura turística.
Mas mais do que simplesmente aumentar o número de voos, é importante trabalhar a articulação entre companhias aéreas, hotéis, operadores turísticos e empresas de transporte. Quem compra um voo deveria conseguir encontrar, com facilidade, alojamento, transfer e excursões no mesmo destino.

Que oportunidade representa a futura ligação ferroviária entre o Sul de Angola e a Namíbia?
Se for concretizada, poderá criar uma oportunidade muito interessante para o turismo no Sul de Angola, pela possibilidade de integrar diferentes destinos num mesmo circuito.
A ligação entre o sistema ferroviário angolano e a fronteira com a Namíbia é uma ideia antiga, associada ao corredor entre o Sul de Angola e o Norte da Namíbia. Estudos anteriores apontam para uma ligação através de Tchamutete/Chamutete, Cuvelai, Evale e Ondjiva até Santa Clara/Oshikango.
Para funcionar bem para o turismo, serão necessários horários previsíveis, um sistema de reservas simples, transporte entre a estação e o alojamento e informação clara sobre as ligações seguintes. Para grupos, será importante organizar antecipadamente transfers, refeições, bagagem e excursões. O objectivo é que o visitante não tenha de resolver tudo sozinho à chegada.
E uma futura ligação marítima de passageiros com escala no Namibe?
Poderia atrair um perfil de visitante diferente e aumentar o número de pessoas que conhecem a cidade. A proposta seria criar programas curtos, de um ou dois dias, com alojamento, transporte e experiências locais.
O visitante poderia conhecer a cidade, a marginal, a costa, a gastronomia e alguns dos principais pontos turísticos antes de continuar a viagem.
Como pode o Cunene complementar uma estadia no Namibe?
O Cunene tem potencial para complementar muito bem uma estadia no Namibe. O Rio Cunene, as quedas de Ruacaná, a paisagem semiárida e o património cultural podem fazer parte de programas de vários dias.
O ideal é trabalhar com operadores e guias locais, garantindo que as actividades sejam realizadas apenas em zonas ambientalmente adequadas e com segurança. O Rio Cunene tem importância ambiental, económica e turística, com pontos de interesse como Ruacaná e as Quedas do Monte Negro.
Que circuitos faria sentido criar a partir do 7 Studios?
Faria sentido criar circuitos que combinem o Namibe com outros destinos do Sul, permitindo ao visitante ficar mais tempo na região. Num programa mais longo, transporte, transfers, alimentação, guias, reservas e assistência durante a viagem tornam-se fundamentais.
O ideal seria uma única reserva, com todo o percurso organizado: alojamento, transporte, transfers, refeições e excursões. Para isso, é necessário trabalhar com parceiros de confiança e ter uma pessoa ou equipa responsável por acompanhar a viagem. Se houver uma alteração de voo, comboio ou outro transporte, o hóspede não deve ficar sozinho; o operador e o alojamento devem ajudar a reorganizar a programação.
Que papel teria uma rede entre Namibe, Lubango, Matala, Menongue, Santa Clara, Xangongo e Tchamutete?
Uma rede entre estes pontos poderia transformar destinos isolados num verdadeiro circuito turístico do Sul de Angola.
Cada local pode assumir uma função diferente: o Namibe pode trabalhar mais o deserto, o litoral e a natureza; o Lubango, o turismo de montanha e de paisagem; o Cunene, a componente cultural e fronteiriça; e Menongue e a região do Cuando, produtos ligados à natureza e à vida selvagem.
Quais são as três prioridades para o turismo crescer de forma séria?
Em primeiro lugar, acessos e transportes; em segundo, água e energia; e, em terceiro, qualificação dos serviços e dos recursos humanos.
Não adianta aumentar a capacidade de alojamento se o visitante tiver dificuldades para chegar, deslocar-se ou encontrar serviços básicos com regularidade. O desenvolvimento turístico precisa de acompanhar a infraestrutura.
Que projecto-piloto propõe para começar?
Um programa-piloto de três dias, reunindo alojamento, restauração, transporte e experiências locais. No primeiro dia, chegada e estadia no 7 Studios; no segundo, uma experiência no deserto ou na costa; no terceiro, uma actividade cultural ou uma excursão para outra zona da província.
É um modelo simples, mas capaz de demonstrar como uma estadia pode transformar-se numa experiência completa de destino.
Como imagina o Namibe daqui a cinco anos?
Gostaríamos de ver um Namibe onde o turismo esteja mais integrado na economia local e onde o visitante não venha apenas para passar uma noite, mas permaneça mais tempo e conheça diferentes partes da província e do Sul de Angola.
Para o 7 Studios, alguns indicadores importantes serão o aumento da duração média das estadias, maior procura fora dos períodos tradicionais, crescimento do emprego local, maior contratação de fornecedores da região e aumento do número de visitantes que realizam actividades turísticas durante a permanência.
Edição João Marcelo de Souza


