À frente dos Caminhos d’Angola, Marta Manuel defende uma nova forma de descobrir o país: ligar comboio, estrada, acampar em tendas, glamping, cultura, conservação e comunidades. A ambição é clara — captar o turista que já circula pela África do Sul, Namíbia e países vizinhos, reduzindo a dependência das ligações aéreas via Luanda.
O Sul de Angola tem deserto, costa atlântica, rios, montanhas, povos, gastronomia, parques e uma escala de natureza difícil de encontrar num só território. Para Marta Manuel, dos Caminhos d’Angola, falta transformar esta riqueza numa oferta integrada e internacionalmente competitiva.
A proposta é criar programas de uma a catorze noites, ligando as dunas do Namibe, a Baía dos Tigres, a Foz do Cunene, o Parque Nacional do Iona, a Huíla, o Cunene e Cuando Cubango. No centro da estratégia está o caminho de ferro — não apenas como transporte, mas como uma nova porta de entrada turística para o Sul.
Revista Executivo — Como nasceram os Caminhos d’Angola?
Marta Manuel — Os Caminhos d’Angola nasceram da vontade de mostrar uma Angola que muitas vezes fica fora dos roteiros tradicionais: a Angola das paisagens imensas, das estradas, dos povos, das histórias locais e da convivência verdadeira com o território.
Começámos por criar experiências de viagem em grupo. A nossa ideia sempre foi levar as pessoas a conhecerem Angola de uma forma mais próxima, mais humana e mais autêntica. Quem viaja connosco não procura apenas transporte ou alojamento; procura sentir o país.
As experiências nas dunas, os acampamentos, as viagens pelo interior e o contacto entre visitantes e comunidades mostraram-nos que existe procura por uma Angola bem organizada, segura e diferente. Foi assim que a visão cresceu: ligar o turismo de expedição ao glamping, à cultura, à conservação e, agora, ao caminho de ferro.
Revista Executivo — Qual é a grande oportunidade do Sul de Angola?
Marta Manuel — O Sul tem tudo para se tornar numa das grandes rotas de natureza e aventura de África. Temos as dunas e o deserto do Namibe, a Baía dos Tigres, a Foz do Cunene, o Parque Nacional do Iona, a montanha da Huíla, as culturas do Cunene e a natureza extraordinária de Cuando Cubango.
O que precisamos é de transformar estes lugares numa experiência completa. O visitante deve encontrar programas bem desenhados, guias preparados, segurança, gastronomia, alojamento, transporte e respeito pelas comunidades e pelo ambiente.
Não basta dizer que temos lugares bonitos. É preciso criar uma oferta que faça o turista ficar mais tempo, consumir mais no território e querer regressar.
Revista Executivo — Porque é que o caminho de ferro é tão importante?
Marta Manuel — Porque o comboio pode mudar a forma como se chega ao Sul. Atualmente, muitos visitantes dependem de ligações aéreas internas e, em vários casos, têm de passar por Luanda para chegar ao Namibe ou a outras províncias. Isso encarece, alonga e torna a viagem menos simples para quem já está a circular na África Austral.
O caminho de ferro pode reduzir essa dependência. Permite chegar ao território de forma mais tranquila, transportar bagagem, observar a paisagem e entrar diretamente numa rota turística organizada.
O comboio não deve ser visto apenas como uma alternativa ao avião. Deve ser parte da experiência. Uma viagem ferroviária bem organizada pode ligar estações, cidades, cultura, gastronomia, glamping e percursos de natureza.
Revista Executivo — Que mercado turístico Angola pode captar?
Marta Manuel — Há um mercado muito importante de turistas que já circulam pela África do Sul, Namíbia, Botswana, Zâmbia e outros países da região. São viajantes habituados a roteiros de natureza, viagens em grupo, 4×4, parques, lodges, campismo organizado e experiências culturais.
Angola deve apresentar-se a esse mercado como uma grande novidade da África Austral. Temos uma autenticidade que muitos destinos já perderam. Temos paisagens ainda pouco exploradas, povos acolhedores, costa atlântica, deserto e uma cultura própria.
Se conseguirmos criar boas ligações, informação clara, operadores qualificados e experiências de qualidade, podemos captar uma parte muito relevante deste turista regional e internacional.
Revista Executivo — A ligação entre Tchamutete e Oshikango é decisiva?
Marta Manuel — É urgente. A ligação ferroviária entre Tchamutete e Oshikango permitiria completar a articulação com a Namíbia e criar uma nova porta de entrada para o Sul de Angola.
Um visitante que esteja na Namíbia poderia entrar por Oshikango, seguir pelo Cunene, Huíla e Namibe, e chegar ao Atlântico. Também poderia fazer o percurso inverso: começar no Namibe, atravessar o Sul de Angola e continuar pela Namíbia em direção a outros países da África Austral.
Não estamos apenas a falar de uma linha férrea. Estamos a falar de integração regional, turismo, comércio, mobilidade, emprego e desenvolvimento para as comunidades ao longo da rota.
Revista Executivo — Onde entra o glamping?
Marta Manuel — O glamping permite levar conforto a lugares extraordinários sem encher a paisagem de grandes construções. É uma solução de baixo impacto quando é bem feita: com energia limpa, gestão responsável de água e resíduos, integração com as comunidades e respeito pela natureza.
No Namibe, podemos ter experiências nas dunas, na costa e na Baía dos Tigres. Na Foz do Cunene, podemos unir rio, mar e natureza. No Cunene, valorizar culturas, gastronomia, artesanato e convivência com as comunidades. Em Cuando Cubango, criar bases para safaris, observação de aves e expedições de natureza.
O visitante pode escolher uma escapadinha de duas ou três noites, uma semana entre deserto, montanha e cultura, ou uma expedição de catorze noites pelo Sul de Angola.
Revista Executivo — Qual deve ser o modelo para o Parque Nacional do Iona?
Marta Manuel — O Iona é um património nacional extraordinário e deve ser protegido com rigor. Mas proteger não significa fechar todas as oportunidades ou entregar o parque a um único operador.
O modelo deve permitir acampar em glamping ou tenda, e experiências de natureza operadas por diferentes entidades licenciadas, incluindo os Caminhos d’Angola, desde que cumpram regras ambientais e de segurança muito exigentes.
Não faz sentido ocupar o parque com grandes construções físicas e permanentes. O mais adequado é criar zonas ordenadas para unidades reversíveis, de baixo impacto, com energia limpa, gestão de resíduos e respeito pelos corredores de fauna e pelas comunidades.
A concorrência saudável melhora os serviços, cria mais emprego e evita a monopolização de um património que pertence a todos os angolanos.
Revista Executivo — Qual é a diferença entre viajar sozinho e viajar com um operador local?
Marta Manuel — Quem viaja de forma independente pode conhecer o território, mas muitas vezes deixa pouco valor organizado na economia local. Pode abastecer, comprar alguns produtos e seguir viagem.
Quando utiliza um operador local, o visitante entra numa cadeia de valor mais ampla: contrata guias, utiliza transporte, dorme em tendas, glamping ou alojamentos locais, consome gastronomia regional, compra artesanato e participa em experiências culturais.
Isso cria emprego, rendimento e formação para jovens e comunidades. O objetivo é que cada viagem deixe uma marca positiva no território — e que o território deixe uma marca inesquecível em quem o visita.
Revista Executivo — Como imagina os Caminhos d’Angola nos próximos anos?
Marta Manuel — Queremos ser uma referência de turismo responsável, autêntico e bem organizado. Queremos ligar pessoas, paisagens, comunidades e oportunidades económicas.
O Sul de Angola não deve ser apenas uma região de passagem. Deve ser um destino internacional, integrado na África Austral, acessível por comboio e estrada, com experiências de natureza, aventura, cultura e hospitalidade de nível mundial.
O futuro pode começar numa estação ferroviária, passar pelas dunas do Namibe, pelo Iona, pelo Cunene, pela Huíla e chegar a Cuando Cubango. Esse é o caminho que queremos ajudar a construir.
Edição João Marcelo de Souza


