A directora-geral e guia da Explore Namibe explica como nasceu uma operação que liga visitantes ao deserto, ao mar, às comunidades e à história do Sul de Angola. Para Vanessa Almeida, o Caminho de Ferro de Moçâmedes, melhores acessos e uma conectividade aérea mais estável podem converter o enorme potencial turístico do Namibe numa economia de oportunidades para os jovens e as comunidades.
Entrevista: Revista Executivo
Há quatro anos, quando Vanessa Almeida deu os primeiros passos no turismo, o Namibe ainda dispunha de poucos guias para responder à procura de quem chegava à província. O ponto de partida foi simples: acompanhar visitantes, assegurar que chegavam aos lugares certos e revelar um território que, para muitos, era ainda desconhecido.
Dessa necessidade nasceu a Explore Namibe, hoje uma agência de turismo orientada para experiências de natureza, cultura e aventura. A operação vai dos passeios diários a programas completos, com alojamento, refeições, transporte, acampamentos e roteiros personalizados por alguns dos locais mais emblemáticos do Sul de Angola.
Nesta conversa com a Revista Executivo, Vanessa Almeida mostra a importância de profissionalizar a experiência turística, proteger os territórios sensíveis e criar as condições logísticas que permitam ao Namibe captar visitantes nacionais, regionais e internacionais.

Como nasceu a Explore Namibe?
A Explore Namibe surgiu da necessidade de existirem mais guias turísticos no Namibe. Há cerca de quatro anos, o turismo ainda não tinha a dinâmica actual e havia pouca gente preparada para levar visitantes de um ponto ao outro, explicar o território e organizar a experiência.
Foi assim que comecei: com os primeiros acompanhamentos, a conhecer cada vez melhor as rotas, as paisagens e aquilo que os visitantes procuravam. Ao longo do caminho, tive o incentivo de pessoas ligadas a restaurantes, hotéis e de outras pessoas próximas que acreditaram no projecto.
Hoje, somos uma agência de turismo composta por operadores que amam aquilo que fazem. O nosso propósito é mostrar o Namibe de forma organizada, segura e verdadeira.
Que serviços prestam actualmente?
Fazemos tours diários, para quem quer sair de manhã, conhecer um destino e regressar ao fim do dia. Mas também trabalhamos com pacotes de pensão completa, para os clientes que preferem chegar e ter tudo tratado: alojamento, refeições, transportes, actividades e os tours.
Organizamos acampamentos no deserto e programas personalizados, sempre em função da disponibilidade da pessoa e da experiência que ela quer viver. Há clientes que ficam um ou dois dias; outros permanecem uma semana, porque o Namibe permite construir roteiros muito diferentes.
Os destinos mais procurados incluem a Baía dos Tigres, a Foz do Cunene, o Parque Nacional do Iona, as Colinas do Coroca, a Lagoa dos Arcos, as dunas, o encontro entre o deserto e o mar e várias praias da província.
Também realizamos visitas a comunidades e povos tradicionais. Isto é importante porque o turismo não deve mostrar apenas paisagens: deve ajudar a conhecer a cultura, a história e o modo de vida das populações do Sul de Angola.

O que torna a experiência da Explore Namibe diferente?
A segurança e o conforto são fundamentais, mas não bastam. Procuramos cumprir um padrão de qualidade e, sobretudo, manter a autenticidade da experiência.
O nosso trabalho é conectar as pessoas à natureza. Hoje, muitas pessoas vivem afastadas dessa essência; chegam aqui e descobrem que podem passar dois ou três dias num lugar onde estão praticamente só elas, o deserto e o mar.
O Namibe tem uma história muito forte nas suas formações naturais. Em muitos locais, é como se o visitante pudesse observar a própria formação do mundo: as montanhas, as rochas, as dunas, o deserto, a costa. É um território que ensina e impressiona ao mesmo tempo.
Qual é a importância do Parque Nacional do Iona para a vossa actividade?
O Iona é um dos pontos mais importantes do nosso turismo. É uma área de deserto com uma diversidade extraordinária de paisagens, fauna e flora. É também um dos locais que mais desperta o interesse dos visitantes.
O parque deve ser valorizado com responsabilidade. O turismo de natureza precisa de regras, operadores preparados e respeito pelos territórios sensíveis. O objectivo não é levar muitas pessoas sem controlo; é proporcionar experiências de qualidade, com conservação e benefícios reais para as comunidades.

Que papel tem o Caminho de Ferro de Moçâmedes no futuro turístico da província?
O caminho-de-ferro tem uma importância muito grande. Para além de ser uma via de ligação entre províncias e regiões, uma viagem de comboio pode ser uma experiência turística por si só.
A viagem ferroviária permite observar as paisagens, criar memória e viajar com segurança. É diferente de ir de avião ou de carro: o visitante passa pelo território, entende as mudanças de paisagem e começa a viver a experiência antes de chegar ao destino.
Para o Namibe, o comboio pode ajudar a captar turistas que circulam pela África Austral e procuram roteiros diferentes, combinando natureza, cultura, aventura e deslocação ferroviária.
A ligação Tchamutete–Oshikango pode mudar a escala do turismo no Sul de Angola?
Seria muito importante. O Sul de Angola é rico não apenas pelas paisagens, mas também pelos seus povos, pela sua história antiga e pelas culturas que continuam vivas.
Uma ligação mais facilitada entre a Namíbia, Oshikango, Santa Clara, Ondjiva, Menongue, Lubango, Matala e Namibe permitiria criar roteiros integrados e fazer visitas entre regiões que hoje são mais difíceis de organizar.
Isso ajudaria a mostrar locais de grande valor natural, mas também a história e as culturas das comunidades. O turismo pode ser uma forma respeitosa de preservar, dar visibilidade e criar rendimento em torno desse património.

Como os voos influenciam a operação turística?
Influenciam muito, porque os nossos programas dependem de vários serviços que não controlamos directamente: hotéis, restaurantes, transportes terrestres e ligações aéreas.
Quando há cancelamentos ou alterações de voos, todo o programa pode ficar comprometido. Muitas vezes, o cliente não tem disponibilidade para esperar mais um ou dois dias pelo voo seguinte. Uma alteração pode obrigar a reformular alojamentos, refeições, actividades e transportes.
As ligações através de Luanda ajudam, mas seria muito positivo existir mais opções directas, por exemplo para o Lubango e, no futuro, ligações regionais que facilitem a entrada de turistas vindos da Namíbia e de outros países.
Que investimentos e melhorias são prioritários?
Os acessos precisam de ser melhorados, mas com inteligência. Nem todos os caminhos do deserto devem ser asfaltados; isso não faria sentido e poderia destruir aquilo que torna o território especial. O importante é garantir acessos seguros e bem mantidos.
Também são necessárias melhores infraestruturas, mais oferta turística qualificada e maior estabilidade na conectividade aérea. O aeroporto do Namibe poderia, gradualmente, ganhar capacidade internacional, mesmo que numa primeira fase através de voos seleccionados.
Se estas condições melhorarem, as empresas locais poderão diversificar os seus serviços, chegar a novos mercados e criar mais oportunidades de trabalho para os jovens.

Como imagina o Namibe daqui a cinco anos?
Espero ver uma província a crescer através do turismo, com melhores acessos, mais infraestruturas, operações mais profissionais e mais jovens envolvidos na actividade.
O resultado deve medir-se no trabalho que se cria, na qualidade dos serviços, no aumento de visitantes, na diversificação das experiências e na conservação do território. Se conseguirmos melhorar a logística e a conectividade, podemos ir mais longe e mostrar que o Namibe tem capacidade para muito mais.
Que mensagem deixa a quem ainda não conhece o Namibe?
O Namibe é, na minha opinião, uma das províncias com maior potencial turístico em Angola. Temos um deserto cheio de paisagens diferentes, uma costa extraordinária, praias muito boas, cultura, comunidades e lugares onde ainda é possível estar apenas com a natureza.
Ainda não temos turismo massificado, e isso é uma vantagem. Quem vem pode viver o destino com tempo, autenticidade e privacidade.
O Namibe não é apenas um lugar para visitar. É um lugar para sentir, conhecer e respeitar.
Edição João Marcelo de Souza


