Projecto de cooperação entre Angola e os Emirados Árabes Unidos pretende afirmar o Caraculo como destino turístico internacional e lançar as bases para uma nova cadeia de valor ligada à criação de camelos
Bibala, Namibe — No coração do deserto do Namibe, onde a paisagem árida se estende entre montanhas, dunas e uma extraordinária biodiversidade, Angola começa a explorar uma nova frente de desenvolvimento económico. O projecto AngoDesert Caraculo, localizado na comuna de Capangombe, município da Bibala, foi oficialmente entregue ao Governo Provincial do Namibe, numa iniciativa de cooperação entre Angola e os Emirados Árabes Unidos.
Mais do que um empreendimento turístico, o projecto é apresentado como uma plataforma com potencial para gerar actividade económica, promover o investimento privado e criar uma cadeia de valor associada à criação de camelos. A visão defendida pelas autoridades passa por transformar o Caraculo num destino de referência nacional e internacional, capaz de combinar hospitalidade, cultura, produção agro-pecuária e experiências turísticas diferenciadas.
A aposta surge num momento em que Angola procura acelerar a diversificação da economia, reduzir a dependência do petróleo e atrair investimentos capazes de aumentar a produção nacional, criar emprego qualificado e incorporar novas competências. A própria estratégia de promoção do investimento do país tem privilegiado projectos que não se limitem a servir o mercado interno, mas que possam funcionar como plataformas de produção, transformação e distribuição para outros mercados africanos.
“Queremos atrair melhor investimento, não apenas mais investimento”
Um projecto nascido da cooperação presidencial

Durante a cerimónia de entrega, o governador do Namibe, Archer Mangueira, explicou que o AngoDesert Caraculo nasceu de uma ideia concebida pelos chefes de Estado de Angola e dos Emirados Árabes Unidos.
O projecto passou por uma fase experimental de aproximadamente dois anos, durante a qual foram avaliados aspectos essenciais para a sua sustentabilidade, nomeadamente a transferência dos animais, a adaptação ao clima do Namibe, a alimentação, a reprodução e o acompanhamento sanitário.
Esta fase de testes foi determinante para confirmar a viabilidade da iniciativa. A adaptação dos camelos às condições naturais da região constitui, segundo os responsáveis do projecto, um dos principais resultados alcançados até ao momento.
Para Archer Mangueira, o próximo desafio consiste em ultrapassar a lógica de uma simples atracção turística. O objectivo é criar um ecossistema económico capaz de beneficiar diferentes sectores e envolver empresas, produtores, operadores turísticos, instituições de formação e comunidades locais.
“Queremos que o projecto seja uma referência nacional e internacional, mas também que esteja ligado à agricultura, à agro-indústria e à criação de uma verdadeira cadeia de valor”, sublinhou o governador.
Do turismo à agro-indústria

A ambição das autoridades provinciais é que o AngoDesert Caraculo evolua para um projecto integrado. A componente turística constitui a face mais visível do empreendimento, mas o seu potencial poderá estender-se à produção e comercialização de leite e carne de camelo, à investigação aplicada, à formação profissional e ao desenvolvimento de produtos associados à identidade cultural do deserto.
A proposta enquadra-se na necessidade de estimular investimentos que transformem recursos e activos locais em bens e serviços de maior valor acrescentado. No domínio da segurança alimentar, o Executivo angolano tem defendido precisamente a implementação de projectos capazes de converter a produção nacional em bens de consumo e, no futuro, em produtos com potencial de exportação.
ECONOMIA – Executivo quer mais investimentos na segurança alimentar
No caso do Caraculo, a criação de camelos poderá abrir espaço para o surgimento de pequenas e médias empresas ligadas a:
- Produção e transformação de leite de camelo;
- Comercialização de carne e derivados;
- Fabrico de produtos alimentares diferenciados;
- Serviços de apoio veterinário e zootécnico;
- Operação de circuitos turísticos e experiências no deserto;
- Produção artesanal e comercialização de artigos de inspiração árabe;
- Formação de guias, tratadores e profissionais de hotelaria;
- Logística, transporte e distribuição de produtos.
A criação desta cadeia de valor dependerá, contudo, de uma abordagem empresarial estruturada. Será necessário assegurar padrões de qualidade, certificação sanitária, capacidade de conservação e transporte, canais de distribuição e uma estratégia de posicionamento dos produtos no mercado.
Para os empresários angolanos, o projecto poderá representar uma oportunidade de entrada num segmento ainda pouco explorado no país. A criação de valor não estará apenas na venda de bilhetes ou na hospedagem de visitantes, mas também na capacidade de desenvolver produtos, serviços e experiências em torno da marca AngoDesert Caraculo.
Uma ponte entre turismo e investimento

O embaixador dos Emirados Árabes Unidos em Angola, Salem Al-Shamsi, classificou o projecto como um marco na cooperação bilateral e reafirmou o compromisso do seu país com o desenvolvimento sustentável e a diversificação da economia angolana.
A cooperação entre os dois países estende-se a sectores como energia, infra-estruturas, defesa, aviação civil e turismo. No caso do AngoDesert, a parceria ganha uma dimensão simbólica particular: um animal associado à história, à cultura e à economia dos Emirados passa a integrar uma nova experiência turística no território angolano.
O diplomata destacou igualmente que os camelos chegaram ao Namibe há dois anos e se encontram em boas condições de saúde. Durante esse período, o projecto começou a despertar o interesse de famílias angolanas, turistas, delegações oficiais e visitantes estrangeiros.
A presença de um grupo de dez turistas provenientes do Médio Oriente demonstra o potencial do empreendimento para captar visitantes ligados culturalmente ao camelo e às paisagens desérticas. Essa ligação cultural poderá ser transformada numa estratégia de promoção turística direccionada para os mercados do Golfo, para comunidades árabes e para outros países com tradição de criação e utilização de camelos.
A atracção de visitantes estrangeiros, porém, exigirá mais do que a singularidade do destino. Será necessário desenvolver uma oferta turística profissional, melhorar a comunicação internacional, assegurar serviços de qualidade e integrar o Caraculo em roteiros que incluam outros pontos de interesse do Namibe, como o deserto, a costa, a fauna, as comunidades locais e o património natural da província.
Rebanho deverá chegar aos 200 animais

O director do projecto, Muammar Ali, da empresa Al Dhafra, revelou que o efectivo inicial era composto por 101 camelos provenientes dos Emirados Árabes Unidos.
Dois anos depois, o número aumentou em quase metade, estando prevista a expansão do rebanho para cerca de 200 animais até ao final do ano. O crescimento do efectivo resulta da reprodução já verificada em território angolano, um sinal considerado positivo para a sustentabilidade futura do empreendimento.
“Os pais são emiratis e os filhos são angolanos”, afirmou Muammar Ali, numa declaração que arrancou aplausos e risos dos presentes.
A frase, além do seu significado simbólico, traduz uma etapa importante do projecto: a passagem de uma iniciativa baseada na transferência de animais para uma operação com capacidade de reprodução local.
A consolidação do rebanho poderá permitir o desenvolvimento de programas de criação, selecção e acompanhamento veterinário, bem como a recolha de dados sobre produtividade, alimentação e adaptação genética às condições do Namibe.
O projecto já assegurou mais de 20 empregos directos e dezenas de postos de trabalho indirectos. Embora os números ainda sejam modestos, o seu crescimento poderá acompanhar a expansão das instalações, da actividade turística e das futuras áreas de produção.
Mais alojamento e novas experiências

Entre os próximos investimentos previstos pela AngoDesert está a construção de mais de dez suítes de luxo, a ampliação das áreas de lazer e a criação de novos espaços destinados aos visitantes.
A oferta actual inclui passeios de camelo, visitas à fazenda, degustação de leite e carne de camelo, recepções de inspiração árabe e zonas de descanso e bem-estar instaladas em tendas tradicionais.
Esta combinação entre natureza, hospitalidade e cultura constitui um dos principais activos do projecto. O visitante não procura apenas observar os animais; procura viver uma experiência completa, associada ao deserto, à gastronomia, à arquitectura, às tradições e ao contacto com uma paisagem pouco comum no contexto turístico angolano.
A expansão da componente hoteleira poderá ainda permitir a realização de:
- Encontros empresariais e retiros corporativos;
- Eventos culturais e gastronómicos;
- Programas de turismo de natureza;
- Experiências educativas para escolas e universidades;
- Sessões fotográficas e produções audiovisuais;
- Actividades de bem-estar e observação da paisagem;
- Visitas institucionais e programas de intercâmbio.
Neste segmento, a capacidade de atrair empresas e investidores dependerá da previsibilidade da operação, da qualidade das infra-estruturas, da acessibilidade, das comunicações e da articulação com os operadores turísticos nacionais.
Uma oportunidade para o sector privado

O AngoDesert Caraculo poderá tornar-se um exemplo de como os projectos turísticos podem funcionar como catalisadores de outros sectores da economia. Para isso, será essencial criar condições para que o sector privado participe activamente na sua expansão.
A experiência de empresas estrangeiras que operam em Angola mostra que o mercado exige uma visão de longo prazo, capital, capacidade de execução e desenvolvimento de pessoas. O investimento no país não deve ser encarado apenas como uma oportunidade pontual, mas como um compromisso estruturado com o território e com os sectores onde se pretende actuar.
No caso do Caraculo, essa participação poderá assumir diferentes formas:
- Investimento em unidades de alojamento e restauração;
- Operação de serviços turísticos especializados;
- Desenvolvimento de produtos alimentares;
- Parcerias na área agro-pecuária;
- Serviços de transporte e logística;
- Formação profissional;
- Produção de conteúdos e promoção internacional;
- Comercialização de produtos associados à marca do projecto.
A mobilização do investimento privado será particularmente relevante para assegurar a continuidade do projecto, ampliar a oferta e transformar o Caraculo num destino economicamente sustentável.
O desafio da escala e da sustentabilidade

Apesar do potencial, a consolidação do AngoDesert Caraculo dependerá da capacidade de ultrapassar alguns desafios estruturais. Entre eles estarão a melhoria dos acessos, a disponibilidade de água, a gestão ambiental, a qualificação dos recursos humanos, a regularidade do abastecimento e a integração do projecto nos circuitos turísticos nacionais e internacionais.
A sustentabilidade deverá estar no centro da expansão. O crescimento do número de animais terá de ser acompanhado por uma gestão responsável dos recursos naturais, por cuidados veterinários permanentes e por sistemas adequados de alimentação e tratamento de resíduos.
Também será importante assegurar que as comunidades locais beneficiem directamente da actividade. A criação de emprego, a contratação de fornecedores da região, a formação de jovens e o apoio ao empreendedorismo local poderão reforçar a legitimidade económica e social do projecto.
A experiência internacional demonstra que os destinos turísticos mais competitivos são aqueles que conseguem combinar uma imagem forte com serviços consistentes, acessibilidade, segurança e capacidade de renovação. O elemento diferenciador — neste caso, a criação de camelos no deserto do Namibe — é apenas o ponto de partida.
Um novo cartão-de-visita do Namibe

A entrega oficial do AngoDesert Caraculo ao Governo Provincial do Namibe assinala uma nova etapa na vida do projecto. Depois da fase de adaptação e testes, começa agora o período de consolidação institucional, empresarial e turística.
O acto contou com a presença do governador Archer Mangueira, do embaixador Salem Al-Shamsi, da administradora municipal da Bibala, Luzia Arcanjo, dos vice-governadores Ema da Silva e Abel do Rosário Capitango, deputados à Assembleia Nacional, representantes de instituições públicas, autoridades tradicionais e religiosas, responsáveis de departamentos provinciais e membros das equipas angolana e emiratis envolvidas na implementação da iniciativa.
Mais do que uma cerimónia protocolar, o momento serviu para reafirmar a importância da cooperação Angola–Emirados Árabes Unidos e para apresentar o Caraculo como um projecto com capacidade de gerar novas oportunidades.

Num país que procura diversificar a sua economia e atrair investimento produtivo, o AngoDesert Caraculo oferece uma mensagem clara: o turismo pode ser uma actividade económica transversal, capaz de ligar património natural, agricultura, agro-indústria, emprego, cultura e comércio.
Se conseguir transformar a curiosidade inicial numa operação profissional, sustentável e integrada, o projecto poderá tornar-se um dos novos cartões-de-visita do Namibe — e um exemplo de como os activos únicos de Angola podem ser convertidos em negócios, experiências e valor económico duradouro.
Edição João Marcelo de Souza


