Sábado, Outubro 10, 2026

Paulo Macedo e o desafio de crescer num mundo em mudança

REVISTA EXECUTIVO · ESPECIAL FORA DA CAIXA

Presidente Executivo da Caixa Geral de Depósitos defende mais escala empresarial e uma utilização da tecnologia que produza resultados.

A incerteza internacional exige decisões mais ponderadas, mas o investimento precisa de continuar. No Encontro Fora da Caixa, em Luanda, Paulo Macedo apresentou uma reflexão sobre a capacidade das empresas para crescer, adaptar a produção e transformar a inovação em produtividade. Para Angola, destacou a diversificação económica e a necessidade de empresas de maior dimensão.

Paulo Moita de Macedo, presidente da Comissão Executiva da Caixa Geral de Depósitos, interveio no primeiro Encontro Fora da Caixa em Angola, promovido pelo Banco Caixa Geral Angola, a 8 de Outubro de 2026. Sob o tema Gestão, Crescimento e Mudança, cruzou as transformações internacionais com as escolhas que se colocam aos empresários e ao sistema financeiro.

Investir com a incerteza presente

O ponto de partida foi um mundo em que os choques se sucedem e os seus efeitos atravessam sectores. Uma perturbação numa rota marítima pode alterar os custos de transporte e comprometer fornecimentos muito longe do local onde começou. Para uma empresa, acompanhar a geopolítica tornou-se parte da avaliação dos custos, dos mercados e da continuidade da actividade.

Macedo chamou a atenção para a transformação tecnológica e para a alteração das relações de poder internacionais. Esse enquadramento exige capacidade de adaptação. Em declarações à imprensa no final do encontro, reforçou que adiar o investimento à espera de um regresso às condições de há cinco anos não constitui uma resposta adequada.

A leitura para os gestores é exigente: rever pressupostos, conhecer as dependências do negócio e tomar decisões com a informação disponível. A prudência ganha utilidade quando ajuda a escolher e a preparar o investimento.

Inteligência artificial com resultados verificáveis

Na inteligência artificial, o presidente executivo da CGD colocou uma questão particularmente relevante para as administrações: em que medida a utilização destas ferramentas já se traduz em resultados económicos? Preparar reuniões, apoiar a programação ou melhorar o atendimento são aplicações concretas. O passo seguinte consiste em demonstrar o seu efeito na produtividade e na conta de resultados.

Macedo referiu a importância de organizar os dados das empresas e de combinar a disponibilização de ferramentas com formação e iniciativas orientadas para objectivos. A adopção quotidiana abre possibilidades, mas a transformação do negócio requer trabalho sobre a informação, os processos e as competências.

A reflexão incluiu a capacidade da tecnologia para gerar receitas e a exposição das actividades à mudança. Ao mesmo tempo, assinalou os problemas de regulação e os riscos associados ao seu desenvolvimento. A oportunidade de ganhar eficiência deve ser acompanhada por uma avaliação responsável das consequências.

Angola precisa de empresas com maior dimensão

Ao abordar Angola, Macedo destacou a redução da dependência do petróleo e a diversificação da economia. Introduziu também um desafio empresarial que atravessa outros países: desenvolver empresas de maior dimensão, capazes de sustentar o crescimento.

Na sua intervenção, a qualificação do talento, a evolução para actividades de maior valor acrescentado e a competitividade energética surgiram entre as prioridades. São escolhas que influenciam a capacidade de produzir e de disputar mercados.

Para a Revista Executivo, este argumento merece atenção: a diversificação económica depende também da capacidade das empresas para executar investimentos e consolidar operações. O crescimento da dimensão empresarial ganha relevância quando permite melhorar a produtividade, desenvolver competências e chegar a novos clientes.

Produção e armazenagem recuperam importância

Um dos argumentos mais concretos da intervenção incidiu sobre as cadeias de abastecimento. A pandemia e os conflitos obrigaram as empresas a rever fornecedores e rotas. A procura de produção mais próxima e de maior segurança no fornecimento altera a avaliação de decisões anteriormente dominadas pelo menor custo.

Macedo explicou que a produção e a armazenagem ganham importância neste contexto. Manter reservas de produtos e componentes pode tornar-se necessário para assegurar a operação, mesmo que represente custos adicionais. A dependência de uma única peça ilustra como uma interrupção limitada pode impedir a entrega de um produto completo.

Para Angola, associou esta reorganização às possibilidades de produzir e armazenar. A leitura empresarial é concreta: identificar o que pode ser fornecido com regularidade, em condições competitivas, a clientes que procuram reduzir a exposição a cadeias distantes.

A juventude exige investimento em educação

A demografia trouxe outra dimensão à análise. Macedo destacou a população jovem de Angola e o potencial que representa num contexto de envelhecimento de outras sociedades. Sublinhou igualmente as exigências imediatas de educação e de melhores condições de vida para as crianças.

A oportunidade demográfica depende da capacidade de preparar essa população para participar na economia. Para as empresas, o tema liga-se à formação e à disponibilidade de competências. Para o país, liga-se à possibilidade de transformar o crescimento populacional em desenvolvimento.

A mudança depende das equipas

Ao longo da intervenção, a tecnologia foi acompanhada por uma preocupação com as pessoas. Macedo salientou a importância de ter as equipas certas e de as envolver na transformação das organizações.

A rapidez com que novas ferramentas chegam aos utilizadores coloca pressão sobre a gestão. A adaptação exige avaliar a sustentabilidade dos produtos e dos negócios actuais, rever a presença internacional e acompanhar as mudanças que afectam o abastecimento. As decisões precisam de chegar à operação e de ser compreendidas por quem as executa.

Uma banca credível para apoiar o crescimento

Na parte final, Macedo abordou a evolução dos pagamentos e o contributo das soluções digitais para a inclusão financeira. A aproximação às gerações mais jovens e o acesso a serviços bancários surgiram como questões relevantes para o sector.

Destacou também a resiliência e a credibilidade dos bancos num ambiente instável. Para as empresas, a continuidade da relação bancária tem valor: permite acompanhar necessidades de financiamento ao longo do tempo e apoiar projectos com horizontes de execução mais longos.

A intervenção deixa aos empresários angolanos uma agenda de trabalho concreta: ganhar dimensão, qualificar pessoas e avaliar onde a tecnologia melhora efectivamente o negócio. A reorganização da produção internacional abre possibilidades. Aproveitá-las exige empresas capazes de fornecer com qualidade e regularidade, apoiadas por relações financeiras duradouras.

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