Sábado, Outubro 10, 2026

FORA DA CAIXA | CAIXA ANGOLA

Durão Barroso e as escolhas económicas num mundo em transformação

Risco geopolítico, inteligência artificial e oportunidades para Angola. O risco geopolítico pesa cada vez mais nas decisões económicas. No Encontro Fora da Caixa, promovido pelo Banco Caixa Geral Angola, José Manuel Durão Barroso relacionou a competição entre grandes potências com os desafios das empresas, a segurança energética e o avanço da inteligência artificial. Para África, identificou possibilidades de acelerar o desenvolvimento através da tecnologia, num mundo em que a cooperação internacional enfrenta dificuldades.

José Manuel Durão Barroso no Encontro Fora da Caixa, em Luanda, a 8 de Outubro de 2026.

Luanda recebeu, a 8 de Outubro de 2026, uma reflexão sobre as forças que estão a transformar a economia mundial. No Auditório Saydi Mingas, no Museu da Moeda, o antigo presidente da Comissão Europeia apresentou uma leitura da actualidade que aproximou a política internacional das decisões tomadas por governos, investidores e gestores.

O ponto de partida foi a incerteza de uma transição ainda sem desfecho definido. As referências da ordem anterior perderam força e o novo equilíbrio permanece em construção. Para Barroso, compreender este momento exige distinguir as tendências profundas dos acontecimentos que aceleram a mudança.

O risco geopolítico entrou nas decisões das empresas

Uma das mensagens com maior relevância para o público empresarial surgiu na análise dos riscos. Barroso chamou a atenção para o peso crescente da geopolítica nas decisões económicas e recordou as consequências enfrentadas por empresas que tinham investido na Rússia antes da guerra na Ucrânia. A alteração das condições políticas pode comprometer posições comerciais e investimentos construídos ao longo de anos.

A discussão estendeu-se às cadeias de abastecimento. Ao recordar a pandemia, descreveu as dificuldades europeias de acesso a material de protecção cuja produção havia sido deslocada para outras regiões. A procura de custos mais baixos deixara dependências que se tornaram visíveis quando os mercados e os fornecedores passaram a actuar sob pressão.

Barroso defendeu que a eficiência deve ser acompanhada pela resiliência, entendida como a capacidade de resistir a choques e manter a actividade. A escolha de uma localização ou de um fornecedor precisa de considerar a possibilidade de uma ruptura e as condições de resposta da organização.

Também abordou a tentativa europeia de reduzir riscos na relação com a China, preservando relações económicas importantes. A sua análise descreveu um comércio internacional que continua a encontrar formas de circular, mas enfrenta fragmentação e maior prudência nas decisões de investimento.

A competição entre grandes potências define o cenário

Os Estados Unidos e a China ocupam o centro da competição pelo poder global. Barroso apresentou esta rivalidade como uma tendência estrutural, ligada à própria lógica do poder, que deverá prolongar-se para além dos mandatos de qualquer governante.

Assinalou a amplitude do poder norte-americano e a dimensão do desenvolvimento económico chinês. A Europa permanece um importante pólo económico e de investimento, mas as dificuldades de afirmação conjunta na defesa e na política externa limitam a sua capacidade de actuar no mesmo plano estratégico.

Sobre este quadro de fundo, destacou acontecimentos que agravaram a incerteza: a invasão da Ucrânia pela Rússia, a reeleição de Donald Trump e a acção militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão. Na sua leitura, estes acontecimentos alteram relações entre países, pressionam o mercado energético e tornam mais difícil antecipar comportamentos políticos.

Ao abordar os conflitos, chamou ainda a atenção para os limites do poder. Mesmo uma grande potência encontra dificuldades em impor integralmente a sua vontade ou em resolver disputas cujas causas permanecem. O controlo do território e das rotas energéticas continua a ter consequências económicas, apesar da expansão da realidade digital.

A demografia e a energia criam desafios diferentes

A evolução demográfica foi apresentada como outra transformação de fundo. Barroso relacionou o envelhecimento europeu com a sustentabilidade dos sistemas de protecção social e com o dinamismo das sociedades. Em África, uma população mais jovem coloca o continente numa situação diferente e influencia a relação entre as duas regiões.

Esta diferença dá particular relevância à formação e às oportunidades de participação económica dos jovens. Na leitura da Revista Executivo, o seu contributo para o desenvolvimento dependerá das condições de acesso ao conhecimento, ao trabalho e à criação de empresas.

A transição energética surgiu associada às alterações climáticas, ao financiamento das mudanças necessárias e à segurança do abastecimento. Barroso assinalou que as energias renováveis também permitem a alguns países utilizar recursos próprios e reduzir dependências externas. Os conflitos acrescentam pressão a um processo que já é exigente.

Referindo-se a Angola, destacou a importância dos seus recursos naturais no domínio da energia e as oportunidades que essa posição pode oferecer. A reflexão coloca em relação a exposição aos mercados internacionais e a capacidade de aproveitar esses recursos no desenvolvimento da economia nacional.

A inteligência artificial pode acelerar o desenvolvimento

A inteligência artificial mereceu uma atenção particular. Barroso distinguiu a valorização das empresas tecnológicas nos mercados financeiros da transformação mais profunda que esta tecnologia pode produzir. Mesmo que ocorram ajustamentos nas valorizações, permanece a possibilidade de mudanças na produção de bens e serviços, na aprendizagem e no acesso ao conhecimento.

Reconheceu os riscos e as questões éticas associados ao desenvolvimento tecnológico. Ao mesmo tempo, apresentou a competição entre países como um factor que dificulta a hipótese de suspender esse desenvolvimento. O desafio envolve compreender e acompanhar ferramentas que já estão a alterar a actividade económica.

Foi neste ponto que a intervenção ganhou especial relevância para África. Barroso abordou a possibilidade de um salto tecnológico, frequentemente designado por leapfrogging: aproveitar ferramentas mais recentes para ultrapassar algumas limitações de acesso à informação, à formação e aos serviços, sem repetir integralmente o percurso das economias mais desenvolvidas.

Ao recorrer a exemplos da aprendizagem e da saúde, mostrou como soluções tecnológicas podem ajudar a responder a distâncias e dificuldades de comunicação. Para Angola, esta perspectiva permite avaliar a inteligência artificial a partir das necessidades concretas de escolas, empresas e comunidades. O acesso à tecnologia precisa de ser acompanhado pela capacidade de a utilizar.

A dívida condiciona a capacidade de resposta

A análise económica incluiu um alerta sobre o endividamento público e privado. Barroso considerou que a acumulação de dívida exige atenção e poderá ter consequências nos mercados, sem antecipar uma data ou uma forma precisa para essas consequências.

Ao abordar a dívida pública, relacionou o pagamento dos juros com a margem disponível para responder a necessidades sociais, incluindo a saúde. Recordou também a experiência europeia de resposta à crise das dívidas soberanas e a importância dos mecanismos criados nesse período.

Para os leitores empresariais, a questão liga-se à confiança e à continuidade dos projectos. Na leitura editorial da Revista Executivo, compromissos financeiros sustentáveis e capacidade de execução tornam-se especialmente relevantes quando o ambiente externo é mais imprevisível.

A cooperação continua a ser necessária

Na parte final, Barroso trouxe a discussão para a dificuldade de conciliar interesses nacionais com necessidades que são comuns à humanidade. Recordou a experiência de acesso às vacinas durante a pandemia e os obstáculos criados quando os países deram prioridade às suas próprias populações.

A saúde das crianças, a protecção do planeta e o desenvolvimento foram apresentados como áreas em que deveria ser possível encontrar entendimentos mínimos entre países com posições diferentes. A rivalidade internacional exige realismo, mas mantém-se a necessidade de cooperar em questões que afectam todos.

Ao evocar o espaço da língua portuguesa, apontou a possibilidade de ligação entre países de diferentes regiões, com interesses próprios, capazes de procurar formas de cooperação. Esta referência aproximou a reflexão mundial das relações entre Angola, Portugal e outras sociedades lusófonas.

A intervenção terminou com uma referência à humanidade entendida através de cada pessoa. A dignidade de um homem, de uma mulher ou de uma criança merece consideração independentemente da sua nacionalidade. Esta dimensão humana deu um sentido concreto ao debate sobre poder, economia e tecnologia.

O debate do Caixa Angola e a leitura para o país

O programa do Encontro Fora da Caixa aproximou esta perspectiva internacional da agenda empresarial angolana. A abertura coube a Patrício Vilar, presidente do Conselho de Administração do Banco Caixa Geral Angola. Paulo Moita de Macedo, presidente da Comissão Executiva da Caixa Geral de Depósitos, abordou gestão, crescimento e mudança. Gonçalo Martins, Senior Partner da McKinsey, apresentou o tema do crescimento económico em África e Angola.

O painel Angola First, moderado por Sebastião Vemba, reuniu Manuela Ferreira, José Carlos Nogueira, Patrício Quingongo e Adilson Nelumba, trazendo para o programa representantes da banca e de diferentes actividades empresariais.

Para a Revista Executivo, a relevância deste encontro está na ligação entre a leitura do mundo e as escolhas feitas em Angola. Uma empresa que procura crescer precisa de conhecer as condições dos seus mercados, a exposição dos seus fornecedores e as competências que terão utilidade no futuro. A análise do risco ajuda a preparar essas decisões.

As oportunidades tecnológicas discutidas por Barroso abrem, por sua vez, uma agenda concreta de formação e modernização. O seu valor para Angola poderá ser avaliado pela capacidade de melhorar serviços, apoiar a produção e ampliar o acesso ao conhecimento. É nessa aplicação que o debate internacional pode contribuir para o trabalho das empresas e para as oportunidades dos jovens.

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