Angola e Namíbia discutem como transformar a produção em negócios agroindustriais.
No Fórum Empresarial Angola–Namíbia, empresários colocaram a previsibilidade das fronteiras, os pagamentos e a transformação industrial entre as condições para aumentar os negócios. A alimentação, o couro e o abacate deram exemplos concretos das cadeias de valor que os dois países podem desenvolver em conjunto.
Revista Executivo | Hotel InterContinental, Luanda, 19 de Outubro de 2026
Fronteiras mais previsíveis, pagamentos que acompanhem o ritmo dos negócios e maior capacidade de transformar a produção foram algumas das prioridades colocadas no Painel I do Fórum Empresarial Angola–Namíbia. Nas intervenções iniciais, a discussão sobre cadeias alimentares e agroindustriais aproximou as oportunidades de investimento das condições necessárias para produzir e vender entre os dois mercados.
O encontro, realizado no Hotel InterContinental, em Luanda, reuniu experiências da indústria alimentar, da pecuária, do couro e da produção agrícola. A pergunta colocada à mesa foi prática: como podem os dois países aproveitar melhor os seus recursos e as competências das suas empresas para gerar actividade industrial e emprego?
Chris Masters, da Fazenda Mungo e do Agroportal, respondeu também com uma história da sua própria exploração. Quando lhe perguntam o que produz, costuma dizer: Paciência. Depois de vários anos de preparação, o empresário afirmou esperar a primeira colheita de abacate para o final de 2026.
O exemplo trouxe ao debate o tempo do investimento agrícola. Entre preparar uma exploração e colocar o produto no mercado existe um período que exige financiamento, trabalho e capacidade de organizar as etapas seguintes da cadeia. É nessa ligação entre a produção e a venda que os participantes identificaram oportunidades para uma cooperação mais próxima.
Uma agenda que aproxima agricultura e indústria

O programa do painel, dedicado à construção de cadeias alimentares e agroindustriais entre a Namíbia e Angola, anunciou ST Ackerman, director-geral da Namib Mills; Mesag Mulunga, director de Planeamento e Desenvolvimento Empresarial do ministério namibiano responsável pela Agricultura, Pescas, Água e Reforma Agrária; Max Schaefer, director-geral da Nakara; João Sunda, consultor financeiro do Projecto de Desenvolvimento da Agricultura Comercial, PDAC; e Chris Masters, da Fazenda Mungo e do Agroportal.
A composição da mesa juntou actividades que podem encontrar parceiros em diferentes fases de um mesmo negócio. A produção agrícola abastece a indústria alimentar; a pecuária fornece matéria-prima para a transformação de peles; a fruta destinada à exportação precisa de compradores e de uma logística ajustada aos mercados de destino.
Nas primeiras intervenções, os recursos agrícolas angolanos e a experiência empresarial namibiana foram apresentados como bases para essa aproximação. A possibilidade de desenvolver mais produção e transformação colocou-se, assim, ao lado da necessidade de facilitar as trocas comerciais já existentes.
Fronteiras previsíveis e pagamentos mais eficientes

ST Ackerman, da Namib Mills (https://www.namibmills.com/about-namib-mills/), relacionou o crescimento económico duradouro com a produção, a transformação e a criação de valor nos dois países. Para o gestor, melhorar o comércio transfronteiriço passa por o tornar mais eficiente e mais previsível.
A sua intervenção destacou os requisitos regulamentares e aduaneiros, o alinhamento das normas alimentares e o funcionamento dos sistemas bancários. São condições que influenciam a capacidade de uma empresa para planear fornecimentos, receber pagamentos e manter relações comerciais regulares.
Ackerman chamou a atenção para a circulação dos fundos entre os dois mercados. Quando os pagamentos são difíceis ou demorados, as consequências chegam à continuidade das operações. Facilitar essa circulação pode apoiar a distribuição e a logística e permitir que o comércio se desenvolva com maior regularidade.
Para os negócios agroindustriais, estas questões acompanham a própria natureza dos produtos. O tempo de transporte, os procedimentos na fronteira e a aceitação dos requisitos de qualidade afectam a capacidade de cumprir uma entrega. A cooperação empresarial depende, por isso, também da forma como as instituições e os serviços permitem que cada operação avance.
ST Ackerman, da Namib Mills (https://www.namibmills.com/about-namib-mills/), relacionou o crescimento económico duradouro com a produção, a transformação e a criação de valor nos dois países. Para o gestor, melhorar o comércio transfronteiriço passa por o tornar mais eficiente e mais previsível.
A sua intervenção destacou os requisitos regulamentares e aduaneiros, o alinhamento das normas alimentares e o funcionamento dos sistemas bancários. São condições que influenciam a capacidade de uma empresa para planear fornecimentos, receber pagamentos e manter relações comerciais regulares.
Ackerman chamou a atenção para a circulação dos fundos entre os dois mercados. Quando os pagamentos são difíceis ou demorados, as consequências chegam à continuidade das operações. Facilitar essa circulação pode apoiar a distribuição e a logística e permitir que o comércio se desenvolva com maior regularidade.
Para os negócios agroindustriais, estas questões acompanham a própria natureza dos produtos. O tempo de transporte, os procedimentos na fronteira e a aceitação dos requisitos de qualidade afectam a capacidade de cumprir uma entrega. A cooperação empresarial depende, por isso, também da forma como as instituições e os serviços permitem que cada operação avance.
A indústria do couro foi apresentada no painel como um exemplo concreto de cooperação a explorar. A proposta relaciona a actividade pecuária e o mercado angolanos com a experiência namibiana no processamento de peles até ao couro acabado.
A Nakara (https://nakara-namibia.com/production-process/?amp=1), representada no programa por Max Schaefer, descreve no seu processo industrial operações que abrangem a transformação de peles em couro acabado. Essa capacidade ajuda a compreender a oportunidade discutida em Luanda: aproveitar uma matéria-prima associada à produção pecuária para alimentar actividades industriais com maior valor comercial.
Mobiliário, calçado, aplicações no sector automóvel e outros artigos de couro foram referidos entre os possíveis destinos dessa produção. Uma articulação entre fornecedores, unidades de transformação e fabricantes poderia aumentar o aproveitamento dos recursos regionais e substituir parte das compras de produtos acabados ao exterior.
A proposta de estudar uma cadeia regional do couro foi associada à criação de emprego e à transferência de competências. A experiência industrial namibiana poderia, assim, encontrar novos parceiros na produção e no mercado angolanos.
O produtor e o valor do produto final
Chris Masters levou o debate para a distribuição do valor ao longo da cadeia agrícola. Na sua avaliação, o produtor tende a ficar com uma parcela menor do rendimento, enquanto as actividades mais próximas do consumidor conseguem captar uma parte maior.
O empresário defendeu uma colaboração regional que permita aos produtores participar de forma mais activa nas etapas que acrescentam valor aos seus produtos. A preocupação está ligada à sustentabilidade do investimento: aumentar a produção precisa de se traduzir em melhores condições para quem investe e trabalha na exploração.
“Temos de aprender a trabalhar em conjunto e a acrescentar valor ao longo da cadeia, na nossa região.”
A experiência da Fazenda Mungo, localizada no Huambo (https://diversificamais.ao/fazenda-mungo-revela-se-como-um-potencial-cliente-para-a-plataforma-logistica-da-caala/), deu conteúdo a essa intervenção. Masters referiu a Europa como o principal mercado que procura alcançar com o abacate, mantendo também no horizonte os mercados da Namíbia e da África do Sul.
O interesse por diferentes destinos mostra como uma exploração agrícola angolana pode pensar a sua actividade em várias escalas. Os mercados regionais oferecem possibilidades de aproximação comercial, enquanto a exportação para destinos mais distantes exige preparação para requisitos específicos de qualidade, conservação e entrega.
Pequenas empresas e comunicação entre mercados
O espaço das pequenas e médias empresas (PME) também foi colocado em discussão. A construção de cadeias regionais depende da possibilidade de essas empresas participarem nos investimentos, nos fornecimentos e nas actividades industriais que possam surgir da cooperação.
Uma cadeia agroindustrial envolve serviços e operações de diferentes dimensões. Além dos produtores e das unidades de transformação, abre espaço a fornecedores de equipamentos, transportadores e empresas de apoio à produção. A capacidade de estabelecer relações comerciais regulares é relevante para que essas actividades cresçam em torno dos projectos maiores.
Masters acrescentou um obstáculo que surge antes de muitas negociações: a língua. O empresário, que disse repartir a sua actividade entre a Namíbia e Angola, referiu a comunicação como uma dificuldade nos contactos entre os dois mercados. Aprender português e inglês pode facilitar a aproximação entre empresários e o acompanhamento dos negócios.

A cooperação ganha conteúdo nas empresas
Os temas do painel dão expressão empresarial à agenda apresentada por Julia Muetudhana, CEO interina da NIPDB, na entrevista à Revista Executivo. A responsável defendeu o aumento do comércio, da transformação e da transferência de competências, tendo como resultado esperado a criação de emprego digno e a melhoria das condições de vida.
No painel, essa ambição encontrou exemplos de execução: tornar os procedimentos mais previsíveis, melhorar os pagamentos, aproveitar as peles na indústria e preparar uma produção de abacate para diferentes compradores. A proximidade entre Angola e a Namíbia favorece naturalmente os negócios nas zonas de fronteira, incluindo o Sul de Angola, mas as oportunidades discutidas abrangem empresas e cadeias produtivas dos dois países.
A primeira ronda de intervenções identificou interesses comerciais que precisam de parceiros e de condições operacionais para avançar. A continuidade dessa aproximação será visível nas relações entre produtores, transformadores e compradores, e na capacidade de fazer chegar aos mercados produtos com maior valor acrescentado.
Texto: Redacção Revista Executivo
Nota editorial: a reportagem incide nas intervenções iniciais do Painel. As declarações em inglês foram traduzidas e ligeiramente editadas para clareza, sem alteração do sentido. Os nomes e cargos dos participantes anunciados foram confirmados através do programa do Fórum.
versão em Inglês:
AGROINDUSTRY | ANGOLA–NAMIBIA COOPERATION
Angola and Namibia examine opportunities to develop agroindustrial value chains

At the Angola–Namibia Business Forum, business leaders identified predictable border procedures, efficient payments and industrial processing as conditions for expanding trade. Food production, leather and avocados provided practical examples of value chains that the two countries could develop jointly.
Revista Executivo | Hotel InterContinental, Luanda, 19 October 2026
More predictable border procedures, payments that support the pace of commercial activity and greater processing capacity were among the priorities raised in Panel I of the Angola–Namibia Business Forum. During the opening round of interventions, the discussion of food and agroindustrial value chains connected investment opportunities with the conditions required to produce and trade across the two markets.
Held at the Hotel InterContinental in Luanda, the meeting brought together experience in food manufacturing, livestock, leather and agricultural production. The panel addressed a practical question: how can the two countries make better use of their resources and business expertise to generate industrial activity and employment?
Chris Masters, of Fazenda Mungo and Agroportal, illustrated the issue through the experience of his own farm. When asked what he produces, he often replies: Patience. After several years of preparation, he stated that he expected his first avocado harvest at the end of 2026.
His account drew attention to the timescale of agricultural investment. The period between establishing a farm and bringing its produce to market requires financing, work and the organisation of subsequent stages in the value chain. Participants identified this connection between production and sales as an opportunity for closer cooperation.
Connecting agriculture and industry

The programme for the panel on building food and agroindustrial value chains between Namibia and Angola announced ST Ackerman, General Manager of Namib Mills; Mesag Mulunga, Director of Planning and Business Development at Namibia’s ministry responsible for agriculture, fisheries, water and land reform; Max Schaefer, Managing Director of Nakara; João Sunda, financial consultant to the Commercial Agriculture Development Project, PDAC; and Chris Masters, of Fazenda Mungo and Agroportal.
The panel brought together activities with potential for partnerships at different stages of the same business. Agricultural production supplies food manufacturing; livestock provides raw material for leather processing; and fruit intended for export requires buyers and logistics suited to its destination markets.
In the opening interventions, Angola’s agricultural resources and Namibia’s business experience were presented as foundations for closer cooperation. The expansion of production and processing was therefore discussed alongside the need to facilitate existing trade.
Predictable borders and more efficient payments

ST Ackerman, of Namib Mills (https://www.namibmills.com/about-namib-mills/), linked lasting economic growth with production, processing and value creation in both countries. For the executive, improving cross-border trade means making it more efficient and more predictable.
His intervention highlighted regulatory and customs requirements, the alignment of food standards and the functioning of banking systems. These conditions influence a company’s ability to plan supplies, receive payments and maintain regular commercial relationships.
Ackerman drew attention to the movement of funds between the two markets. Difficulties or delays in payment affect business continuity. Facilitating these flows can support distribution and logistics and allow trade to develop with greater regularity.
For agroindustrial businesses, these concerns are closely related to the nature of their products. Transport times, border procedures and compliance with accepted quality requirements affect the ability to fulfil a delivery. Business cooperation therefore also depends on how institutions and services enable each transaction to proceed.
Leather as an industrial opportunity
Chris Masters focused on how value is distributed along the agricultural chain. In his assessment, producers tend to receive a smaller share of earnings, while activities closer to the consumer capture a larger share.
He advocated regional collaboration that enables producers to participate more actively in the stages that add value to their output. His concern relates to the sustainability of investment: increased production needs to translate into improved conditions for those investing and working on the farm.
“We have to learn how to work together and add value along the value chain ourselves, regionally.”
The experience of Fazenda Mungo, located in Huambo (https://diversificamais.ao/fazenda-mungo-revela-se-como-um-potencial-cliente-para-a-plataforma-logistica-da-caala/), provided a practical basis for his remarks. Masters identified Europe as the principal market he seeks to reach with avocados, while also considering Namibia and South Africa.
Interest in several destinations illustrates how an Angolan farm can consider its operations at different scales. Regional markets offer opportunities for closer commercial relationships, while exports to more distant destinations require preparation to meet specific requirements for quality, preservation and delivery.
Small businesses and communication between markets
The role of small and medium-sized businesses was also raised. Building regional value chains depends on their ability to participate in the investment, supply relationships and industrial activities that cooperation may generate.
An agroindustrial value chain involves services and operations of different sizes. Alongside producers and processing facilities, it offers opportunities for equipment suppliers, transport operators and businesses supporting production. Regular commercial relationships are important if these activities are to develop around larger projects.
Masters identified a further obstacle encountered before many negotiations: language. The businessman, whose activities span Namibia and Angola, referred to communication as a difficulty in contacts between the two markets. Knowledge of Portuguese and English can help entrepreneurs establish relationships and manage their commercial dealings.

Business cooperation and practical implementation
The panel’s themes provide a practical business dimension to the agenda presented by Julia Muetudhana, Acting CEO of NIPDB, in her interview with Revista Executivo. She advocated increased trade, processing and skills transfer, with decent employment and improved living standards as the intended outcomes.
The panel connected this ambition to practical examples: more predictable procedures, improved payments, the industrial use of hides and the preparation of an avocado crop for different buyers. Proximity naturally favours business in border areas, including southern Angola, while the opportunities discussed extend to companies and production chains in both countries.
The opening round identified commercial interests that require partners and suitable operating conditions to progress. Continued cooperation will be reflected in relationships between producers, processors and buyers, and in the capacity to bring products with greater added value to market.
Text: Revista Executivo Editorial Team
Editorial note: this report covers Panel I’s opening round. Quotations have been lightly edited for clarity without changing their meaning. The names and positions of the announced participants were confirmed through the Forum programme.


