Terça-feira, Outubro 20, 2026

COOPERAÇÃO ECONÓMICA | ÁFRICA AUSTRAL

Angola e Namíbia querem mais investimento com valor acrescentado

Em entrevista à Revista Executivo, Julia Muetudhana, CEO interina da NIPDB, apresenta uma agenda de cooperação centrada no comércio, na transformação de matérias-primas e na transferência de competências. Energia, transportes e turismo podem aproximar empresas e criar emprego nos dois países.

Oportunidades de cooperação.

A Namíbia quer aprofundar os negócios com Angola e transformar a relação entre os dois países em maior capacidade produtiva. Para Julia Muetudhana, CEO interina do Namibia Investment Promotion and Development Board, NIPDB https://www.nipdb.com/executive-management, a aproximação empresarial deve aumentar o comércio, estimular a transformação local e transmitir competências que permaneçam nas duas economias.

Em entrevista à Revista Executivo, a responsável identificou oportunidades na agricultura, saúde, mineração, petróleo e gás, tecnologias de informação, logística e transportes. A missão empresarial namibiana procurou encontrar parceiros angolanos nesses sectores, com interesses que abrangem o fornecimento de bens e serviços e o desenvolvimento de investimentos conjuntos.

Muetudhana coloca a criação de emprego no centro dessa agenda. A expansão dos negócios, explicou, deve produzir benefícios que cheguem às populações, uma preocupação que liga a promoção do investimento à qualidade do desenvolvimento económico.

Uma relação económica com maior transformação local

A responsável da NIPDB descreveu Angola e a Namíbia como países ligados por uma longa relação de amizade e proximidade política. É sobre essa base que pretende ver crescer uma cooperação empresarial com resultados mais amplos na produção e no emprego.

O argumento aponta para uma questão que atravessa várias economias africanas. Exportar recursos pode gerar receitas, mas transformar esses recursos exige empresas, trabalhadores qualificados e serviços capazes de acompanhar a produção. É nessa passagem que podem surgir novas oportunidades de investimento e uma participação maior das empresas locais no valor dos produtos vendidos.

A composição da delegação traduz essa procura de complementaridade. Segundo Muetudhana, as empresas privadas namibianas representam actividades que encontram correspondência nos interesses dos parceiros angolanos. Na agricultura e na logística, por exemplo, uma aproximação entre produtores, operadores de transporte e compradores pode criar relações comerciais continuadas. Na saúde, nas tecnologias e nos serviços ligados à energia e às minas, a cooperação pode também envolver conhecimento técnico e formação.

Corredores de transporte para aumentar o comércio.

As ligações entre os dois mercados ocuparam uma parte importante da entrevista. Questionada sobre a possibilidade de aproximar as redes ferroviárias de Angola e da Namíbia, Muetudhana manifestou abertura ao desenvolvimento de infra-estruturas que facilitem o transporte de mercadorias e apoiem a ambição namibiana de funcionar como plataforma logística regional.

A responsável considera que o comércio bilateral permanece reduzido e que melhores corredores de transporte podem contribuir para o seu crescimento.

A Namíbia já funciona, segundo Muetudhana, como território de passagem de equipamentos destinados a Angola, incluindo maquinaria proveniente da África do Sul. Uma rede regional mais articulada permitiria ampliar essa circulação e relacionar o mercado angolano com outros destinos da África Austral.

O Walvis Bay Corridor Group (https://www.wbcg.com.na/the-trans-cunene-corridor/) identifica o corredor Trans-Cunene como uma ligação entre o Porto de Walvis Bay e o Sul de Angola. Esse enquadramento dá expressão prática à proximidade entre os dois países, sobretudo nos fluxos que passam pelo Cunene. A discussão sobre os transportes tem, contudo, um alcance nacional e regional, pelo acesso que pode proporcionar a produtores, importadores e exportadores de diferentes mercados.

Muetudhana admitiu igualmente a possibilidade de articulação entre os portos de Walvis Bay e do Namibe, no quadro da ambição de facilitar o acesso aos mercados internacionais. Sobre o calendário da ligação ferroviária entre Walvis Bay e o Botswana, também abordada na conversa, afirmou não dispor de informação que permitisse indicar datas.

Baynes procura investidores

Na energia, Julia Muetudhana destacou o projecto hidroeléctrico binacional de Baynes, no rio Cunene. Apresentou-o como uma oportunidade para aumentar a oferta de electricidade nos dois países e apoiar o desenvolvimento de energia renovável.

Segundo a responsável, o projecto encontra-se numa fase avançada de preparação, com um acordo de implementação assinado e trabalhos de estruturação financeira em curso. A procura de investidores continua a fazer parte desse processo.

A informação publicada pelo Ministério da Energia e Águas de Angola (https://minea.gov.ao/web/noticias/angola-e-namibia-reafirmam-o-compromisso-com-o-desenvolvimento-do-projecto-hidroelectrico-de-baynes) prevê uma potência de 860 megawatts para Baynes, repartida igualmente entre Angola e a Namíbia.

Para as empresas, a relevância desta cooperação está na disponibilidade de electricidade para produzir, conservar alimentos e prestar serviços. A captação de investimento industrial depende também de condições de abastecimento que permitam planear operações e suportar o crescimento da procura.

O turismo é outra área em que Muetudhana identifica interesses complementares. A responsável referiu a hotelaria, o ecoturismo, o turismo de saúde e o turismo educativo entre as actividades que podem beneficiar de uma aproximação entre operadores dos dois países.

Turismo com promoção conjunta

A diversidade das paisagens e experiências constitui, na sua perspectiva, um argumento para a promoção conjunta. Questionada sobre a possibilidade de combinar destinos angolanos e namibianos numa oferta turística mais ampla, mostrou-se favorável a essa articulação.

A proposta abre espaço ao trabalho entre agências de viagens, unidades de alojamento, transportadores e operadores turísticos. Para o visitante, a possibilidade de combinar experiências em dois países vizinhos pode aumentar o interesse de uma viagem à região. Para as empresas, exige coordenação comercial e condições de deslocação que tornem o percurso realizável.

A conversa com a dirigente da NIPDB ultrapassou a dimensão estritamente bilateral. Os corredores de transporte foram discutidos também pela sua capacidade de ligar Angola a outros mercados e de apoiar a circulação de produtos através dos portos atlânticos.

Muetudhana relacionou essa ambição com os instrumentos de integração económica africana, incluindo a Zona de Comércio Livre Continental Africana. Referiu igualmente a União Aduaneira da África Austral, SACU, de que a Namíbia faz parte. Angola não integra a SACU (https://www.sacu.int/about-sacu), pelo que os dois enquadramentos têm regras e âmbitos distintos.

Para as empresas, o acesso regional depende dos requisitos aplicáveis a cada operação. As regras de origem.(https://au.int/sites/default/files/treaties/36437-ax-AfCFTA_RULES_OF_ORIGIN_MANUAL.pdf) determinam a elegibilidade dos produtos para preferências comerciais; a utilização de um corredor de transporte, por si só, não lhes confere esse benefício. A oportunidade de alcançar novos compradores exige, por isso, preparação comercial e conhecimento dos mercados.

É nessa ligação entre investimento, produção e circulação que se concentra a proposta apresentada por Julia Muetudhana. A Namíbia procura parceiros angolanos para negócios que aumentem a transformação e a capacidade de fornecer a região. O resultado que a responsável espera ver é concreto: empresas a trabalhar em conjunto, competências transmitidas e emprego digno criado nos dois países.

Texto: Redacção Revista Executivo

Nota editorial: a entrevista foi realizada em inglês. As declarações foram traduzidas e ligeiramente editadas para clareza, sem alteração do sentido. As informações documentais sobre Baynes, os corredores e os acordos comerciais constituem contexto editorial, identificado nas ligações.

Versão em Inglês:

ECONOMIC COOPERATION | SOUTHERN AFRICA

Angola and Namibia seek greater investment and local value addition

In an interview with Revista Executivo, Julia Muetudhana, Acting CEO of NIPDB, outlines an agenda for cooperation centred on trade, the processing of raw materials and skills transfer. Energy, transport and tourism offer opportunities to strengthen business partnerships and create employment in both countries.

Revista Executivo | Luanda, 19 October 2026

Namibia seeks to strengthen business relations with Angola and translate the relationship between the two countries into greater productive capacity. For Julia Muetudhana, Acting CEO of the Namibia Investment Promotion and Development Board, “NIPDB” (https://www.nipdb.com/executive-management), closer business cooperation should increase trade, encourage local processing and transfer skills that remain within both economies.

In an interview with Revista Executivo, she identified opportunities in agriculture, healthcare, mining, oil and gas, information technology, logistics and transport. The Namibian business mission sought Angolan partners in these sectors, with interests ranging from the supply of goods and services to joint investment.

Muetudhana places employment at the centre of this agenda. Business expansion, she explained, should deliver benefits to communities, linking investment promotion to the quality of economic development.

An economic relationship built on local processing

The NIPDB executive described Angola and Namibia as countries united by longstanding friendship and close political ties. She considers this relationship a foundation for business cooperation with a greater impact on production and employment.

Her argument addresses a question facing many African economies. Resource exports can generate revenue, while processing those resources requires businesses, skilled workers and services that support production. This transition can create investment opportunities and give local companies a larger share of the value of the products sold.

The composition of the delegation reflects this search for complementary activities. According to Muetudhana, the Namibian private companies represent sectors that correspond to the interests of their Angolan counterparts. In agriculture and logistics, for example, closer links between producers, transport operators and buyers can support sustained commercial relationships. In healthcare, technology and services related to energy and mining, cooperation can also involve technical expertise and training.

Transport corridors to support trade

Connections between the two markets featured prominently in the interview. Asked about the possibility of connecting Angola’s and Namibia’s railway networks, Muetudhana welcomed infrastructure development that would facilitate freight transport and support Namibia’s ambition to serve as a regional logistics hub.

She considers bilateral trade to be limited and believes that improved transport corridors can contribute to its expansion.

According to Muetudhana, Namibia already serves as a transit country for equipment destined for Angola, including machinery from South Africa. A more connected regional network could expand these flows and link the Angolan market with other destinations in Southern Africa.

The Walvis Bay Corridor Group (https://www.wbcg.com.na/the-trans-cunene-corridor/) identifies the Trans-Cunene Corridor as a connection between the Port of Walvis Bay and southern Angola. This gives practical expression to the proximity of the two countries, particularly for trade passing through Cunene. The transport discussion also has national and regional relevance because of the access it could provide to producers, importers and exporters across several markets.

Muetudhana also acknowledged the possibility of cooperation between the ports of Walvis Bay and Namibe to facilitate access to international markets. Asked about the timetable for a railway connection between Walvis Bay and Botswana, another subject raised during the interview, she stated that she did not have the information required to provide dates.

Baynes seeks investors

In the energy sector, Julia Muetudhana highlighted the binational Baynes hydropower project on the Cunene River. She presented it as an opportunity to expand electricity supply in both countries and support renewable energy development.

According to the executive, preparations are at an advanced stage, with an implementation agreement signed and financial structuring under way. Attracting investors remains part of that process.

Information published by Angola’s Ministry of Energy and Water (https://minea.gov.ao/web/noticias/angola-e-namibia-reafirmam-o-compromisso-com-o-desenvolvimento-do-projecto-hidroelectrico-de-baynes) envisages 860 megawatts of capacity at Baynes, shared equally between Angola and Namibia.

For businesses, the importance of this cooperation lies in the electricity required for production, food preservation and services. Attracting industrial investment also depends on supply conditions that enable companies to plan their operations and meet growing demand.

Joint tourism promotion

Tourism is another area where Muetudhana sees complementary interests. She mentioned hospitality, ecotourism, health tourism and educational tourism among the activities that could benefit from closer links between operators in both countries.

In her view, the diversity of landscapes and experiences provides a basis for joint promotion. Asked about combining Angolan and Namibian destinations within a broader tourism offering, she expressed support for the proposal.

The proposal offers scope for cooperation between travel agencies, accommodation providers, transport companies and tour operators. For visitors, combining experiences in two neighbouring countries could strengthen the appeal of a visit to the region. For businesses, this requires commercial coordination and travel arrangements that make the itinerary feasible.

A regional ambition

The conversation with the NIPDB executive extended beyond the bilateral relationship. Transport corridors were also discussed for their ability to connect Angola with other markets and support product flows through Atlantic ports.

Muetudhana linked this ambition to African economic integration instruments, including the African Continental Free Trade Area. She also referred to the Southern African Customs Union, SACU, of which Namibia is a member. Angola is not a member of SACU (https://www.sacu.int/about-sacu), and the two frameworks have distinct rules and scopes.

For businesses, access to regional markets depends on the requirements applicable to each transaction. Rules of origin (https://au.int/sites/default/files/treaties/36437-ax-AfCFTA_RULES_OF_ORIGIN_MANUAL.pdf) determine whether products qualify for trade preferences; the use of a transport corridor does not, in itself, confer that benefit. Reaching new buyers therefore requires commercial preparation and knowledge of the target markets.

The connection between investment, production and the movement of goods is central to the agenda presented by Julia Muetudhana. Namibia is seeking Angolan partners for business activities that expand processing and the capacity to supply the region. The outcome she envisages is tangible: companies working together, skills being transferred and decent employment created in both countries.

Text: Revista Executivo Editorial Team

Editorial note: the interview was conducted in English. Quotations have been lightly edited for clarity without changing their meaning. Documentary information on Baynes, transport corridors and trade agreements provides editorial context identified through the links.

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