João Lourenço defende a interligação do Corredor do Lobito à rede TAZARA. A proposta pode ampliar as opções comerciais da África Austral e Central, aproximar mercados e criar oportunidades industriais. O seu alcance dependerá da capacidade de transformar infra-estruturas de vários países num serviço integrado, competitivo e previsível.
Revista Executivo | 2 de Novembro de 2026

A caminho de Dodoma, capital da Tanzânia, João Lourenço colocou a ligação ferroviária entre os oceanos Atlântico e Índico no centro de uma visão de desenvolvimento continental. Durante a deslocação de comboio, na companhia da Presidente tanzaniana, Samia Suluhu Hassan, o Chefe de Estado angolano anunciou que os dois países estudam a possibilidade de interligar o Corredor do Lobito ao Corredor TAZARA.
Poderíamos ter ido de avião, mas entendemos ir de comboio
Afirmou à imprensa. A escolha deu expressão à mensagem que pretendia transmitir: a ferrovia pode aproximar cidades, populações e países, oferecendo às economias africanas melhores condições para produzir, negociar e participar nas cadeias internacionais de valor.
A ambição é estabelecer uma ligação integrada entre o Porto do Lobito, na costa atlântica de Angola, e Dar es Salaam, no Índico. Entre as duas extremidades encontram-se territórios agrícolas, centros mineiros e mercados cuja competitividade depende, em parte, do custo e da fiabilidade do acesso aos portos.

Para Angola, a proposta representa uma oportunidade de ampliar a influência económica do Lobito. Para a Tanzânia, pode reforçar Dar es Salaam como porta de entrada e saída do interior africano. Para a Zâmbia e a República Democrática do Congo, poderá aumentar as alternativas logísticas e a capacidade de escolher rotas em função do destino, do preço e da qualidade do serviço.
O ponto de partida inclui infra-estruturas existentes. Segundo a Lobito Atlantic Railway, a ligação entre o Lobito e Kolwezi, na RDC, compreende 1.289 quilómetros em território angolano e cerca de 450 quilómetros na secção congolesa. Este eixo já serve o comércio entre a região mineira congolesa e a costa atlântica.
Fonte: Lobito Atlantic Railway: https://www.lobitoatlantic.com
No lado oriental, a TAZARA liga Dar es Salaam a New Kapiri Mposhi, na Zâmbia, ao longo de aproximadamente 1.860 quilómetros. Construída com apoio chinês, entrou em plena operação em 1976, tornando-se uma infra-estrutura histórica de acesso ao mar e de cooperação entre a Tanzânia e a Zâmbia.
Fonte: TAZARA: https://www.tazarasite.com/our-history
A interligação destes sistemas exige olhar para a rede regional no seu conjunto. As conexões através da RDC e da Zâmbia constituem uma frente de articulação; o desenvolvimento de uma ligação directa entre Angola e a Zâmbia acrescenta outra. A própria Lobito Atlantic Railway distingue a operação existente do projecto de nova ferrovia que permitirá ligar directamente os dois países. A TAZARA, por sua vez, identifica a compatibilidade da sua rede com sistemas ferroviários da África Austral, incluindo os da Zâmbia e da RDC.

Fontes: LAR: https://www.lobitoatlantic.com/faqe
TAZARA: https://www.tazarasite.com/freight-services
Neste contexto, há um desenvolvimento recente particularmente relevante. Em 27 de Outubro, a Africa Finance Corporation anunciou os concorrentes preferenciais para os contratos de construção da nova ferrovia Zâmbia–Lobito, de 830 quilómetros: o consórcio Webuild, Mota-Engil e IC İçtaş para a secção zambiana; e Mota-Engil e Odebrecht Engineering and Construction para a angolana. As negociações contratuais deverão começar em Novembro, sujeitas a entendimento técnico, comercial e jurídico.
Fonte: AFC, 27 de Outubro de 2026: https://www.africafc.org/news-and-insights/news/afc-announces-preferred-epc-contractors-for-zambia-lobito-railway-advancing-atlantic-trade-corridor-to-project-implementation

É um avanço na preparação de uma componente importante da conectividade regional. A criação de um serviço integrado até ao Índico dependerá também das condições das restantes linhas, das operações fronteiriças e dos acordos entre os intervenientes.
Na TAZARA, a revitalização constitui uma peça decisiva. Num comunicado de 13 de Outubro, a administração da autoridade ferroviária referiu um investimento de 1,4 mil milhões de dólares previsto na concessão com a China Civil Engineering Construction Corporation. O documento assinala trabalhos preparatórios e requisitos ainda necessários para a plena eficácia da concessão, evidenciando que a recuperação da capacidade operacional será um processo gradual.
Fonte: TAZARA: https://www.tazarasite.com/tazara-board-reviews-revitalisation-and-approves-plan-operational-recovery
No lado atlântico, a LAR informa ter assegurado, em Dezembro de 2025, 753 milhões de dólares de financiamento junto da agência norte-americana DFC e do Banco de Desenvolvimento da África Austral, registando o primeiro desembolso da DFC em Junho de 2026. Estes recursos dizem respeito à operação da LAR e devem ser distinguidos do financiamento necessário às restantes componentes de uma futura ligação entre os dois oceanos.

Fonte: Lobito Atlantic Railway: https://www.lobitoatlantic.com/about-the-project
O interesse internacional acompanha uma abordagem mais ampla ao desenvolvimento do corredor. Em Agosto, o Banco Africano de Desenvolvimento anunciou a aprovação de um empréstimo de 255 milhões de dólares e de uma subvenção de 10 milhões de dólares para apoiar a participação zambiana. A iniciativa articula transportes, facilitação comercial, agricultura, energia e capacidade institucional.

Fonte: BAD: https://www.afdb.org/en/news-and-events/zambia-african-development-bank-group-approves-255m-loan-and-10m-grant-advance-lobito-economic-corridor-96069
Do ponto de vista económico, o maior potencial desta articulação está na possibilidade de ligar o transporte à produção. Um acesso mais eficiente aos portos pode melhorar as condições de exportação de cobre, cobalto e outros recursos. O impacto industrial será mais profundo se essa acessibilidade vier acompanhada de energia, competências e investimento que permitam realizar mais transformação nos países produtores.
A agricultura apresenta uma oportunidade igualmente relevante. Uma ligação ferroviária regular, apoiada por estradas de acesso, silos, armazenagem e cadeias de frio, poderá aproximar zonas produtoras de mercados urbanos e internacionais. Para os produtores, a previsibilidade do escoamento pode facilitar contratos de fornecimento e decisões de investimento. Para as cidades, pode contribuir para uma oferta mais estável.
Nas empresas, a fiabilidade logística tem consequências financeiras. Uma mercadoria que chega dentro do prazo permite planear compras, reduzir necessidades de stock de segurança e organizar melhor o capital circulante. A redução da incerteza pode ser tão importante como a diminuição do preço do frete.
É neste ponto que deve ser avaliada a perspectiva presidencial de utilizar o eixo para movimentar mercadorias entre a Ásia e o espaço atlântico, com transbordos em Dar es Salaam e no Lobito. A competitividade dessa operação terá de ser demonstrada por rota e por tipo de carga, considerando o transporte ferroviário, o manuseamento nos dois portos, as formalidades aduaneiras e a frequência das ligações marítimas.
As economias de escala do transporte marítimo também entram nessa equação. Determinadas cargas poderão valorizar uma alternativa terrestre pela rapidez, pela localização do destino ou pela diversificação de rotas. Outras continuarão a encontrar vantagens no percurso marítimo. A viabilidade comercial dependerá de comparações completas de custo, tempo e regularidade.
O benefício mais directamente identificável está no acesso das próprias economias africanas aos dois oceanos. Para um exportador do interior, poder escolher entre uma saída atlântica e outra índica pode aumentar a flexibilidade comercial. Para um importador, pode facilitar o abastecimento de equipamentos, factores de produção e bens essenciais.
A concretização desta possibilidade exigirá coordenação entre governos, administrações aduaneiras, portos, gestores de infra-estruturas e operadores ferroviários. Um cliente que contrata transporte internacional precisa de conhecer o preço total, os prazos e a responsabilidade de cada interveniente. Documentação harmonizada, informação partilhada e procedimentos fronteiriços eficientes serão determinantes para a qualidade do serviço.
A Zâmbia ocupa uma posição central nesta arquitectura. A RDC também é decisiva para a articulação das redes existentes e para a procura de transporte. O entendimento entre Angola e a Tanzânia poderá ganhar escala através de uma coordenação regional que envolva estes países desde a preparação técnica até à operação comercial.
Para o sector privado angolano, o campo de oportunidades estende-se à armazenagem, manutenção ferroviária, serviços portuários, distribuição, seguros, financiamento comercial e soluções digitais de acompanhamento de carga. O aproveitamento dessas oportunidades dependerá da preparação das empresas e do acesso efectivo aos contratos e serviços associados ao corredor.
A cooperação bilateral oferece outras possibilidades de ligação à economia real. No discurso proferido em Dodoma, João Lourenço manifestou interesse na participação de investidores tanzanianos na Refinaria do Lobito e destacou perspectivas de investimento agrícola no Leste de Angola. Referiu ainda os esforços para estabelecer ligações aéreas directas entre Luanda e Dar es Salaam, ampliando a agenda de aproximação entre os dois mercados.

Fonte: CIPRA: https://www.cipra.gov.ao/noticias/3281/governo/cidade-de-dodoma/discurso-do-presidente-da-republica
A convergência de instituições africanas, parceiros europeus, norte-americanos e chineses em diferentes componentes da rede oferece uma oportunidade de mobilização de capital e conhecimento. A capacidade dos países africanos para definir prioridades comuns, acompanhar os compromissos assumidos e desenvolver competências locais será fundamental para converter esse interesse em resultados duradouros.

O retorno deverá também chegar às comunidades atravessadas pelas infra-estruturas, através de emprego qualificado, contratação de fornecedores, acesso aos mercados e uma gestão responsável dos impactos ambientais e sociais. A distribuição destes benefícios influenciará a sustentabilidade económica e política do projecto.
Na viagem a Dodoma, João Lourenço apresentou a ligação entre os dois oceanos como uma possibilidade ao alcance dos países envolvidos. O próximo passo será dar forma operacional a essa ambição: definir soluções técnicas, mobilizar financiamento, executar investimentos e construir um serviço comercial fiável.
O seu sucesso poderá medir-se nos dias de transporte poupados, nas empresas que passam a exportar, na produção que ganha mercado e no valor que permanece nas economias africanas. É nessa transformação que a ligação entre o Lobito e Dar es Salaam poderá encontrar o seu maior significado.


