RWB – Rural Wealth Brazil Agri Invest prevê combinar pecuária intensiva e produção agrícola, com a participação de cooperativas e comunidades locais
Por Jorgina Manuela
A empresa brasileira RWB – Rural Wealth Brazil Agri Invest prepara um projecto agropecuário de larga escala na província de Malanje, com potencial para abranger, numa primeira fase, uma área de até 10 mil hectares e beneficiar mais de 10 mil famílias. A iniciativa, liderada pelo empresário e agrónomo Fábio Tenório, prevê a conjugação da pecuária intensiva com culturas agrícolas de elevado valor acrescentado, tendo o café como uma das principais apostas para a região.
O projecto insere-se numa estratégia de aproximação entre capital, tecnologia e conhecimento empresarial brasileiro e o potencial agrícola de Angola. Para além do café, a RWB considera igualmente oportunidades de investimento nas cadeias produtivas do cacau e do coco, sectores com procura crescente e perspectivas de expansão nos mercados regional e internacional.
Segundo Fábio Tenório, presidente executivo da RWB – Rural Wealth Brazil Agri Invest, Malanje foi seleccionada depois de uma avaliação preliminar das suas condições naturais, agrícolas e logísticas.
“Malanje é a região que considerámos. Fizemos um estudo de campo com recurso a drones, análise da composição do solo, identificação da pluviometria, avaliação do índice de chuvas e verificação da disponibilidade fluvial de rios e afluentes”, afirmou.
A análise realizada pela empresa procurou identificar as áreas com melhores condições para a instalação de culturas permanentes e para o desenvolvimento de uma actividade pecuária estruturada. A disponibilidade de água, a qualidade dos solos e o regime de chuvas são considerados factores determinantes para assegurar a produtividade e a sustentabilidade do projecto.
Café como principal aposta

Fábio Tenório sublinhou que a estratégia da empresa está alinhada com a crescente procura por produtos como café, cacau e coco no mercado brasileiro. Na sua perspectiva, Angola reúne condições para assumir um papel estratégico como parceiro de produção e fornecimento desses produtos, sobretudo devido à disponibilidade de terras, às condições climáticas favoráveis e ao potencial de envolvimento das comunidades rurais.
“Estamos a observar uma procura cada vez maior por esses produtos no Brasil. Angola pode tornar-se um parceiro estratégico, não apenas pela sua capacidade de produção, mas também pela possibilidade de desenvolver cadeias de valor com impacto directo nas comunidades”, explicou.
Durante a visita de trabalho a Angola, a comitiva da RWB conheceu igualmente uma cooperativa local que já desenvolve actividades agrícolas numa área de aproximadamente mil hectares. A experiência foi considerada relevante para a estruturação do modelo que a empresa pretende implementar em Malanje.
“Foi extraordinário visualizar o que já está, de facto, a funcionar, perceber o que está a dar certo e observar como as comunidades da região estão envolvidas”, afirmou Fábio Tenório.
A experiência da cooperativa demonstrou, segundo o empresário, que é possível desenvolver uma agricultura organizada, com participação comunitária e capacidade de gerar resultados económicos. O modelo poderá servir de base para a expansão das actividades e para a integração de novos produtores nas cadeias do café, da pecuária e de outras culturas de interesse comercial.
Embora Malanje seja apontada como uma prioridade para a produção de café e o desenvolvimento da pecuária intensiva, outras províncias angolanas também estão a ser analisadas para projectos direccionados principalmente ao cacau e ao coco.
A diversificação geográfica permitirá à RWB adaptar cada produção às características específicas das diferentes regiões do país, tendo em conta factores como o clima, os solos, a disponibilidade de água, as vias de acesso e a proximidade dos mercados.
Ciclo de produção e preparação das terras

De acordo com o empresário, o café exige um período de três a quatro anos até atingir uma fase de produção relevante. O mesmo horizonte temporal é considerado para o ciclo de cria, recria e engorda do gado, o que demonstra a necessidade de uma visão de longo prazo e de um planeamento rigoroso.
A preparação das terras está prevista para começar no primeiro trimestre do próximo ano, de acordo com o planeamento apresentado pela empresa. Esta etapa deverá incluir a organização das áreas de cultivo, a preparação dos solos, a definição das zonas destinadas à pecuária e a criação das condições logísticas necessárias para o arranque das operações.
A RWB prevê participar na preparação das terras, na aquisição de equipamentos, na formação técnica dos produtores e na organização da logística. O objectivo é assegurar que os cooperados e as comunidades envolvidas tenham acesso a conhecimentos, ferramentas e métodos de produção capazes de melhorar a produtividade e a qualidade dos produtos.
Em contrapartida, os cooperados participarão nos resultados obtidos através da actividade produtiva. O modelo proposto pretende estabelecer uma relação de parceria entre a empresa de investimento, as cooperativas e os produtores locais, evitando uma lógica meramente assistencialista e promovendo a partilha dos benefícios económicos gerados.
“Não se trata de financiamento através de empréstimo. Trata-se de uma participação nos resultados gerados. O cooperado participa no resultado juntamente com a empresa de investimento”, explicou Fábio Tenório.
Investimento, tecnologia e inclusão
Para o responsável da RWB, o principal objectivo é combinar investimento, tecnologia e produção em escala com a inclusão efectiva das comunidades locais. A empresa pretende criar um modelo que permita aumentar a produção, gerar emprego, desenvolver competências técnicas e estimular o surgimento de novas oportunidades de negócio no meio rural.
A aposta na agricultura empresarial poderá também contribuir para a dinamização de sectores complementares, como o transporte, a manutenção de equipamentos, o fornecimento de insumos, a armazenagem, a transformação agro-industrial e a comercialização dos produtos.
Durante a visita a Angola, a delegação da empresa conheceu ainda uma operação de cana-de-açúcar com mais de 10 mil hectares. A estrutura instalada nessa unidade foi considerada uma referência importante para o projecto que a RWB pretende desenvolver em Malanje.
Para Fábio Tenório, a experiência demonstrou que Angola já dispõe de exemplos concretos de agricultura empresarial em grande escala, com infra-estruturas e modelos de gestão que podem servir de referência para a criação de novas cadeias produtivas.
“Aquilo que vimos mostra que Angola tem capacidade para desenvolver projectos agrícolas de grande dimensão. É necessário ampliar essas experiências, integrar mais comunidades e criar condições para que a produção tenha continuidade e acesso aos mercados”, salientou.
Malanje no centro da nova frente agro-industrial

A aposta da RWB passa agora por transformar essa experiência num novo modelo de produção, com foco no café e na pecuária intensiva, sem excluir oportunidades nas áreas do cacau e do coco. O projecto poderá colocar Malanje no centro de uma nova frente de investimento agro-industrial, reforçando a posição da província como um dos principais pólos agrícolas do país.
A concretização da iniciativa dependerá de várias etapas, incluindo a conclusão dos estudos técnicos, a preparação das terras, a mobilização dos equipamentos, a organização das cooperativas e a definição dos mecanismos de participação das famílias beneficiárias.
Com uma área potencial de até 10 mil hectares e a possibilidade de envolver mais de 10 mil famílias, o projecto apresenta-se como uma iniciativa de dimensão relevante para a economia rural angolana. Além de aumentar a produção agrícola e pecuária, poderá contribuir para a criação de empregos, o fortalecimento das cooperativas e a melhoria do rendimento das comunidades.
A RWB pretende, assim, aproximar o capital e a experiência empresarial brasileira das capacidades produtivas angolanas, criando uma plataforma de cooperação orientada para resultados. Se for concretizado conforme o planeamento apresentado, o projecto poderá representar um passo importante para a modernização da agricultura em Malanje e para a consolidação de Angola como um parceiro estratégico na produção de café, cacau, coco e produtos pecuários.


