Na sexta-feira, assinalam-se seis meses desde que os bombardeamentos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão desencadearam um conflito que interrompeu o fornecimento global de energia e provocou fortes oscilações nos mercados financeiros internacionais.
O impacto da guerra não se limitou ao preço do petróleo. As perturbações no abastecimento energético afectaram também os combustíveis refinados, o transporte aéreo, os fertilizantes, os alimentos e as condições de financiamento dos países produtores. Ao mesmo tempo, os investidores procuraram proteger os seus activos num ambiente marcado por inflação, incerteza geopolítica e dúvidas sobre a evolução das taxas de juro.
Os gráficos abaixo mostram de que forma o conflito afectou o petróleo, as acções, os activos tradicionalmente considerados de refúgio e os preços dos alimentos.
ENERGIA MAIS CARA
Os preços do petróleo dispararam depois de a produção no Golfo ter sido interrompida e de os embarques através do Estreito de Ormuz terem sido reduzidos. O petróleo bruto Brent ultrapassou brevemente os 120 dólares por barril em Abril e mantém, em 2026, uma média próxima dos 90 dólares, acima dos aproximadamente 70 dólares registados no ano passado.
O maior impacto, contudo, verificou-se nos combustíveis refinados. Os preços do gasóleo aumentaram ainda mais devido à escassez de destilados médios, às interrupções nas refinarias russas provocadas por ataques ucranianos e à perda de fluxos de exportação provenientes do Golfo.
Esta evolução representa um risco significativo para as economias dependentes da importação de combustíveis. O aumento do preço do gasóleo eleva os custos dos transportes rodoviários, da produção agrícola, da logística e da distribuição de bens essenciais. Para empresas e consumidores, o efeito tende a espalhar-se por toda a economia, pressionando as margens, reduzindo o poder de compra e dificultando o controlo da inflação.

O combustível para aviões também foi inicialmente duramente afectado, devido à importância estratégica do Golfo no fornecimento global. No entanto, o aumento da produção e das exportações das refinarias norte-americanas ajudou a aliviar os receios relativamente ao abastecimento.
Com a aproximação do Inverno no hemisfério norte, novas interrupções nos embarques através de Ormuz, associadas aos riscos sobre a infraestrutura energética russa, poderão intensificar a pressão sobre o preço do óleo de aquecimento e contribuir para uma nova subida da inflação.
Para os mercados emergentes e para os países africanos importadores de produtos refinados, a questão energética continua particularmente sensível. Uma factura petrolífera mais elevada pode pressionar as reservas cambiais, aumentar os custos de importação e limitar o espaço orçamental disponível para investimento público e apoio às famílias.
O IMPULSO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL AMORTECE AS BOLSAS
As acções globais, em grande medida, ignoraram o conflito, impulsionadas pelos biliões de dólares que continuam a entrar no sector da inteligência artificial.
O índice mundial de acções da MSCI, que acompanha 47 países, atingiu este mês um recorde de 105 biliões de dólares, acumulando um ganho de quase 7 biliões de dólares, ou 9%, desde o início da guerra. As acções da região do Golfo, porém, tiveram um desempenho inferior ao dos principais mercados internacionais.
A valorização das empresas ligadas à inteligência artificial, aos semicondutores, à computação em nuvem e à infraestrutura digital criou um poderoso contrapeso aos receios provocados pela guerra. O entusiasmo em torno destes sectores levou muitos investidores a privilegiar as perspectivas de crescimento e inovação, mesmo num contexto de instabilidade geopolítica.

O analista da Fidelity, Pranav Aggarwal, afirmou que a subida generalizada dos mercados sugere que os investidores estão a adoptar uma “visão relaxada” e continuam a acreditar que a guerra poderá terminar ainda este ano.
“As acções estão, na realidade, a ter um ano muito bom”, afirmou. “Subiram cerca de 14% no ano. Se esperamos uma valorização de 8% a 9% num ano normal, um crescimento de 14% até Agosto é bastante significativo.”
Apesar da resistência das bolsas, os analistas alertam que a tranquilidade dos mercados poderá ser testada caso o conflito se prolongue, afecte directamente outras rotas comerciais ou provoque uma subida mais persistente dos preços da energia. Uma nova deterioração do ambiente geopolítico poderá também levar os investidores a reverem as avaliações das empresas e as expectativas de crescimento dos lucros.
EM BUSCA DE SEGURANÇA
Nenhum dos activos que os investidores normalmente procuram em períodos de crise — como as obrigações de governos com elevada qualidade de crédito, o ouro e o dólar — desempenhou de forma consistente o seu papel tradicional de refúgio.
O dólar valorizou-se 1,4% face a um cabaz das principais moedas desde o início da guerra. Ainda assim, os analistas consideram que grande parte deste movimento reflecte sobretudo a fraqueza do iene japonês, e não necessariamente uma procura generalizada pela moeda norte-americana como activo de segurança.
As obrigações do Tesouro dos Estados Unidos, tradicionalmente consideradas um pilar das carteiras de investimento, registaram uma perda de 3,5% em termos de retorno total. A inflação mais elevada reduziu as expectativas de cortes nas taxas de juro norte-americanas, enquanto as preocupações relacionadas com o novo presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, e os planos inesperados de Washington para recomprar dívida também pesaram sobre o mercado.
O comportamento dos títulos demonstra que, numa crise geopolítica, a segurança pode deixar de ser avaliada apenas pela estabilidade do emissor. As perspectivas para a inflação, as decisões dos bancos centrais, a sustentabilidade da dívida pública e a credibilidade das políticas económicas passaram a ter um peso cada vez maior nas decisões dos investidores.

O ouro caiu quase 25% entre o início da guerra e Julho. Ainda assim, o metal precioso mais do que triplicou de preço desde 2022, quando as potências ocidentais congelaram as reservas dos bancos centrais da Rússia, na sequência da invasão da Ucrânia.
O ouro recuperou, entretanto, mais de 15% este mês, devido às preocupações renovadas com uma eventual desvalorização do dólar. A sua trajectória continua a ser acompanhada de perto por investidores institucionais, bancos centrais e gestores de património, sobretudo num período em que cresce a incerteza sobre as moedas de reserva e a política monetária norte-americana.
Para os investidores africanos, esta volatilidade reforça a necessidade de diversificação. A exposição excessiva a uma única moeda, a uma única matéria-prima ou a um único mercado pode aumentar a vulnerabilidade das empresas e dos fundos de investimento perante choques externos.
ALIMENTOS E FERTILIZANTES SOB PRESSÃO
O encerramento do Estreito de Ormuz também interrompeu os embarques de fertilizantes, um factor essencial para a produção mundial de alimentos.
A interrupção dos fornecimentos, combinada com um El Niño intenso e com novas perturbações nos embarques de cereais relacionadas com a guerra na Ucrânia, ameaça agravar os riscos para a produção agrícola global.
Os preços dos alimentos subiram em Julho para o nível mais elevado dos últimos três anos, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). No entanto, os especialistas alertam que grande parte do impacto da crise ainda não se reflectiu totalmente nos preços finais pagos pelos consumidores.
A FAO advertiu que o mundo poderá estar a caminhar para uma nova vaga de inflação alimentar. O JPMorgan estima que um El Niño forte, por si só, poderá elevar a inflação mundial dos alimentos em cerca de 0,7% no seu ponto mais elevado.

O aumento do preço dos fertilizantes é particularmente preocupante porque pode levar os agricultores a reduzir a aplicação de insumos, diminuindo os rendimentos das colheitas e agravando a dependência das importações. Este efeito tende a ser mais severo em países onde a produção agrícola já enfrenta limitações de financiamento, tecnologia, infraestruturas e acesso a mercados.
O impacto deverá ser sentido com maior intensidade na Ásia, na América Latina e em África, onde as famílias destinam uma parcela maior do rendimento à compra de alimentos e os decisores políticos continuam cautelosos perante novas pressões sobre os preços.
Em economias africanas, o encarecimento dos alimentos pode provocar consequências que ultrapassam o plano económico. A inflação alimentar afecta directamente o rendimento disponível das famílias, aumenta a pressão sobre os salários e pode obrigar os governos a reforçar programas de apoio social, subsídios e medidas de controlo de preços.
GOLFO SOFRE UM FORTE ABALO
O impacto directo no Golfo foi expressivo. As exportações da Arábia Saudita diminuíram 10% entre o primeiro e o segundo trimestre. O JPMorgan estima que as vendas de imóveis no Dubai tenham recuado entre 70% e 80%, enquanto a Oxford Economics alerta que a economia do Qatar poderá contrair-se quase 30% este ano, devido aos danos provocados na sua unidade de produção de gás em Ras Laffan.
As bolsas do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos caíram cerca de 14%, registando um desempenho inferior em mais de 20 pontos percentuais ao das acções mundiais.

O custo de assegurar a dívida dos dois países contra um eventual incumprimento também aumentou. O Bahrein, que apresenta níveis de endividamento mais elevados, foi o país mais afectado, com os preços dos seus swaps de risco de incumprimento de crédito a subirem quase 40%.
A dimensão do impacto mostra como a estabilidade dos países do Golfo continua ligada ao funcionamento das cadeias globais de energia, transporte, comércio e investimento. Mesmo as economias com maiores reservas financeiras não estão imunes a uma crise que afecte simultaneamente as exportações, o turismo, o imobiliário, os mercados de capitais e a confiança dos investidores.
Para os executivos angolanos, a evolução do conflito contém uma mensagem clara: as decisões empresariais já não podem ser tomadas apenas com base na procura interna ou nos indicadores financeiros tradicionais. O custo do transporte, a disponibilidade de divisas, o preço dos combustíveis, o acesso ao crédito e a segurança das cadeias de abastecimento estão cada vez mais condicionados por acontecimentos geopolíticos externos.
UM CONFLITO COM EFEITOS ALÉM DO MÉDIO ORIENTE
Seis meses depois do início da guerra, os mercados continuam a revelar uma aparente capacidade de adaptação. As bolsas globais beneficiaram do entusiasmo em torno da inteligência artificial, enquanto o petróleo, o ouro, as obrigações e o dólar apresentaram comportamentos menos previsíveis do que em crises anteriores.
Essa aparente estabilidade, porém, não deve ser confundida com ausência de riscos. A energia continua vulnerável a novas interrupções, a inflação alimentar pode acelerar e os países do Golfo enfrentam perdas significativas em sectores estratégicos.
O conflito demonstrou também que uma perturbação regional pode transformar-se rapidamente num problema global. O encerramento de uma rota marítima, a interrupção de uma refinaria ou a limitação das exportações de fertilizantes pode afectar empresas, governos e consumidores em continentes distantes.
Num cenário desta natureza, a capacidade de antecipação torna-se uma vantagem competitiva. Para as empresas, isso significa reforçar a gestão de risco, diversificar fornecedores, proteger a liquidez e acompanhar de perto os mercados cambiais e de matérias-primas. Para os governos, significa preservar reservas, garantir a segurança alimentar e energética e criar condições para que a economia possa absorver choques externos.
A guerra no Médio Oriente ainda não redefiniu completamente a trajectória dos mercados financeiros globais. Mas já alterou a forma como investidores e empresas avaliam o risco. Para os líderes empresariais africanos, a principal lição é inequívoca: num mundo mais fragmentado e imprevisível, a resiliência deixou de ser apenas uma preocupação operacional — passou a ser uma prioridade estratégica.
Por João Marcelo de Souza


