Iniciativa da RWB – Rural Wealth Brazil Agri Invest prevê começar com até 10 mil hectares e beneficiar mais de 10 mil famílias, através da produção de café, cacau, coco, milho, arroz e soja.
Por Jorgina Manuela
Empresários brasileiros realizaram, no sábado, 16 de Agosto, uma visita de constatação à província de Malanje, com o objectivo de avaliar as condições locais para a implementação de um projecto agropecuário de larga escala.
A iniciativa, promovida pela empresa brasileira RWB – Rural Wealth Brazil Agri Invest, prevê, numa primeira fase, a exploração de até 10 mil hectares de terra nos municípios de Cambaxi e Calandula. O projecto poderá ser posteriormente ampliado, com potencial para beneficiar mais de 10 mil famílias, através da integração de cooperativas, produtores individuais e comunidades locais na cadeia de produção.

A proposta insere-se numa estratégia de investimento no sector agropecuário angolano, com foco na produção, transformação e comercialização de produtos agrícolas destinados ao mercado nacional e, futuramente, à exportação.
Segundo o CEO da RWB – Rural Wealth Brazil Agri Invest, Fábio Tenório, o projecto deverá combinar a pecuária intensiva com a produção de café, cacau e coco, sendo o café a principal aposta da empresa para a província de Malanje.
“Angola pode assumir um papel estratégico como parceiro de produção e fornecimento destes produtos”, afirmou.
O responsável explicou que a empresa pretende apoiar a preparação das terras, a aquisição de equipamentos, a formação técnica dos produtores e a organização da componente logística. Em contrapartida, as cooperativas e as comunidades locais deverão participar nos resultados da produção, criando novas oportunidades de rendimento e emprego.
A preparação das terras está prevista para o primeiro trimestre do próximo ano. A empresa considera que a criação de uma base produtiva organizada será determinante para garantir a sustentabilidade do projecto e aumentar a produtividade das áreas agrícolas.
Fábio Tenório destacou ainda o potencial agrícola de Angola, a experiência das cooperativas locais e a existência de operações de grande escala já em funcionamento no país. Na sua perspectiva, estes factores representam uma base importante para a implementação de um modelo de parceria entre investidores estrangeiros, Governo, cooperativas e comunidades.
Produção em larga escala

Durante a visita, os empresários brasileiros conheceram igualmente a realidade produtiva da Fazenda Unicanda, uma das referências da actividade agrícola na província de Malanje.
O gerente administrativo da fazenda, Jonathan Timóteo, considerou a presença dos investidores brasileiros uma oportunidade para a troca de experiências e para a apresentação do trabalho que tem sido desenvolvido na região.
“Temos actualmente 400 mil hectares de milho para colher nos próximos 50 dias. Já colhemos aproximadamente 16 toneladas de milho. Este ano, tivemos também uma produção de arroz de cerca de 1.200 toneladas e 800 toneladas de soja. Estimamos produzir mais de 4.500 toneladas em cada 10 mil hectares”, disse.
Para o responsável, a visita poderá contribuir para o reforço das relações entre os produtores angolanos e os investidores brasileiros, sobretudo no domínio da mecanização agrícola, da gestão de grandes áreas de cultivo, da formação de quadros e da adopção de tecnologias voltadas para o aumento da produtividade.
A troca de conhecimentos entre os dois países é vista como uma oportunidade para melhorar os métodos de produção, reduzir perdas, organizar o escoamento dos produtos e criar condições para o desenvolvimento de uma agricultura mais competitiva e orientada para o mercado.
Cooperativas como motor do desenvolvimento

O presidente da UNICOP, João dos Santos, sublinhou a importância das cooperativas no desenvolvimento da agricultura em Angola, particularmente na província de Malanje, que possui uma forte tradição agrícola e condições naturais favoráveis, como terras férteis, recursos hídricos e um clima adequado para diversas culturas.
Para o responsável, a organização dos produtores em cooperativas permite aumentar a capacidade de negociação, facilitar o acesso a equipamentos e crédito, melhorar a assistência técnica e garantir maior estabilidade na comercialização da produção.
“Temos aqui um exemplo concreto. Por isso, foco muito na questão da imigração, porque estamos a assistir a uma grande fuga de cérebros e de mão-de-obra que poderia especializar-se na agricultura e contribuir para o desenvolvimento do país”, frisou.
No âmbito do projecto, está prevista a realização de um cadastro de cooperativas, abrangendo cerca de 3 mil famílias e aproximadamente 15 mil associados. As inscrições poderão ser efectuadas através de uma plataforma online, com o objectivo de facilitar a participação dos produtores e garantir maior transparência no processo.
As pessoas que não possuem terras poderão solicitar o apoio do Governo Provincial para obter áreas destinadas ao cultivo, desde que cumpram os requisitos definidos no âmbito da iniciativa.
João dos Santos defendeu que o cooperativismo pode desempenhar um papel decisivo na geração de emprego, no aumento da produção agrícola e na fixação da mão-de-obra no país. A aposta neste modelo poderá contribuir igualmente para reduzir a dependência de produtos importados e fortalecer a economia das famílias rurais.
Além disso, a integração dos cidadãos em cooperativas permite o acesso a mecanismos de protecção social, incluindo a contribuição para a Segurança Social, garantindo maior segurança financeira e melhores perspectivas para os trabalhadores no futuro.
Tecnologia e experiência brasileira
O engenheiro agrónomo do Gabinete Provincial de Malanje, Inácio Chindongo, considerou que a presença dos investidores brasileiros poderá trazer benefícios significativos para a província.
Segundo o técnico, o Brasil possui uma experiência reconhecida no domínio da agricultura tropical, área que apresenta características semelhantes às verificadas em várias regiões de Angola.
“Essa experiência pode contribuir para o aumento dos níveis de produção na província, para a criação de emprego, para a organização das comunidades produtoras e para a estruturação da cadeia de valor dos produtos agro-alimentares”, referiu.
O responsável acrescentou que a entrada de novos investimentos poderá estimular a transferência de conhecimento, promover a formação de técnicos angolanos e melhorar a articulação entre produtores, empresas de transformação, instituições financeiras e redes de distribuição.
A expectativa é que a iniciativa ajude a transformar a produção agrícola numa actividade mais estruturada, com maior capacidade de gerar valor acrescentado dentro da própria província. Para isso, será necessário investir não apenas na produção, mas também no armazenamento, na transformação, no transporte e no acesso aos mercados.
Malanje como destino de investimento
A visita dos empresários brasileiros surge num momento em que Angola procura atrair investimentos para diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo. Neste contexto, a agricultura é considerada um dos sectores com maior potencial para gerar emprego, garantir segurança alimentar e estimular o desenvolvimento das zonas rurais.
Malanje reúne condições para se afirmar como um dos principais pólos agrícolas do país, devido à disponibilidade de terras, ao potencial hídrico e à possibilidade de desenvolver culturas como café, arroz, milho, soja, cacau e coco.
A concretização do projecto poderá reforçar a posição da província no mapa dos investimentos agro-industriais em Angola, desde que sejam asseguradas condições de financiamento, infra-estruturas, segurança jurídica, assistência técnica e escoamento da produção.
A iniciativa da RWB – Rural Wealth Brazil Agri Invest pretende, assim, combinar capital, tecnologia e experiência brasileira com o conhecimento das comunidades e cooperativas angolanas. Se for implementado de forma integrada e sustentável, o projecto poderá criar novas oportunidades para os produtores, dinamizar a economia local e contribuir para o crescimento da agricultura nacional.


