Prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento regular são considerados fundamentais para reduzir as complicações da doença.
Por Jorgina Manuela
Mais de 5 mil crianças com anemia falciforme encontram-se actualmente em acompanhamento médico na província de Luanda. O dado foi avançado pelo representante provincial da Saúde, Manuel Varela, que considera a prevenção, o diagnóstico precoce e o seguimento regular dos pacientes medidas fundamentais para reduzir as complicações associadas à doença.
A informação foi apresentada durante o II Simpósio sobre Anemia Falciforme, realizado de 6 a 7 de Agosto, em Luanda, sob o tema “Anemia Falciforme em Angola e no Mundo: da Ciência à Prática Clínica Integrada”. O encontro decorreu sob o lema “Construir Pontes entre a Investigação, o Tratamento e a Humanização”, reunindo profissionais de saúde, investigadores e especialistas ligados ao acompanhamento de pessoas com esta patologia.
Durante a sua intervenção, Manuel Varela destacou os avanços registados no acompanhamento dos pacientes com anemia falciforme, salientando a integração do Instituto Hematológico Vitória do Espírito Santo no Sistema Nacional de Saúde como um dos passos relevantes para melhorar a assistência médica e o acesso a cuidados especializados.
Além desta instituição de referência em Luanda, outras províncias do país já dispõem de serviços habilitados para realizar o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento de pacientes com anemia falciforme. Para o responsável, a expansão destes serviços tem contribuído para aproximar os cuidados das comunidades e reduzir o sofrimento das famílias afectadas.
“Podemos afirmar que, este ano, temos acompanhado mais de 5 mil crianças com esta patologia. O reforço das acções de prevenção e acompanhamento deve ser contínuo, de modo a garantir uma melhor qualidade de vida para estes pacientes”, afirmou Manuel Varela.
Prevenção deve começar nas famílias

O representante provincial da Saúde chamou igualmente a atenção para a importância da prevenção no seio das famílias, sobretudo através do aconselhamento relacionado com os casamentos e do conhecimento do estado genético dos futuros progenitores.
Segundo os dados apresentados, a anemia falciforme pode afectar uma parcela significativa dos recém-nascidos, o que reforça a necessidade de promover o aconselhamento genético, o diagnóstico atempado e a adopção de medidas preventivas. Neste contexto, o conhecimento do perfil genético dos casais é considerado essencial para reduzir o risco de transmissão da doença às gerações seguintes.
No caso dos adultos, Manuel Varela explicou que os pacientes que cumprem regularmente o tratamento tendem a apresentar uma redução das crises dolorosas e das complicações que podem afectar diferentes órgãos do organismo. O acompanhamento médico contínuo permite, igualmente, identificar precocemente sinais de agravamento e adoptar medidas adequadas para preservar a saúde dos doentes.
Entre os tratamentos utilizados encontra-se a hidroxiureia, medicamento que, segundo o responsável, deve ser administrado de forma contínua e regular, de acordo com a orientação médica. O elevado custo do fármaco, contudo, continua a representar um desafio para muitas famílias, dificultando, em alguns casos, a continuidade do tratamento.
Novas alternativas terapêuticas
Manuel Varela destacou ainda os avanços registados internacionalmente no tratamento da anemia falciforme, mencionando novas alternativas terapêuticas baseadas na edição genética do ADN, para além do transplante.
Embora estas soluções ainda representem desafios em termos de acesso, custos, capacitação técnica e infra-estruturas, o responsável considera que a evolução da ciência abre perspectivas importantes para o futuro dos pacientes com anemia falciforme.
Apesar dos progressos alcançados, reconheceu que a doença continua a constituir uma preocupação de saúde pública em Luanda e no país. Por essa razão, defendeu o reforço das políticas de prevenção, do diagnóstico precoce, do tratamento regular e do acompanhamento multidisciplinar dos doentes.
Simpósio reforça compromisso institucional

Para o director clínico do Hospital dos Cajueiros, Tomás Fernando, a realização do simpósio representa mais do que um encontro académico. Trata-se, segundo explicou, de um compromisso renovado com a melhoria da qualidade dos cuidados prestados às pessoas que vivem com anemia falciforme e com o fortalecimento das capacidades técnicas e científicas dos profissionais de saúde.
“O Hospital dos Cajueiros acompanha diariamente um elevado número de pessoas com anemia falciforme, contando actualmente com mais de 4 mil doentes em seguimento. Esta realidade faz da doença um dos grandes desafios assistenciais da nossa instituição”, afirmou.
Tomás Fernando salientou que o acompanhamento destes pacientes exige uma abordagem integrada, envolvendo diferentes áreas da saúde e uma relação permanente entre os profissionais, os doentes e as respectivas famílias. Para o responsável, a continuidade dos cuidados é determinante para reduzir as complicações e melhorar os resultados clínicos.

Por sua vez, a directora pedagógica do Hospital dos Cajueiros, Eugénia Mateus, ressaltou que o principal objectivo do simpósio, que já vai na sua segunda edição, é reunir especialistas que trabalham com anemia falciforme, promover a troca de experiências e unir sinergias para melhorar a abordagem dos doentes, desde o diagnóstico na infância até à vida adulta.
“Conseguimos, a partir da primeira actividade, implementar o seguimento ambulatório em algumas províncias e criar condições para que colegas de outras regiões viessem até Luanda participar na actividade. A partir daqui, puderam receber novas orientações e partilhar experiências relacionadas com o acompanhamento dos pacientes”, frisou.
Eugénia Mateus acrescentou que, apesar dos avanços, os desafios continuam a ser significativos. No entanto, sublinhou que os profissionais de saúde estão empenhados e comprometidos em ultrapassar as barreiras existentes no sector, através da formação contínua, da partilha de conhecimentos e do reforço da cooperação entre as instituições.
A responsável defendeu, por isso, a continuidade de iniciativas desta natureza, considerando que o diálogo entre especialistas, instituições de saúde e investigadores é essencial para consolidar uma resposta mais eficaz à anemia falciforme em Angola.


