Crissolito Inácio, Docente Universitário e Doutorando em Gestão pela Universidade de Évora
O terceiro dia do Angola Economic Forum 2026 confirmou que Angola atravessa um momento de viragem. A redução da dependência do petróleo, a descida da inflação, o reforço da disciplina fiscal e a aproximação aos padrões internacionais de transparência representam conquistas relevantes. São resultados de um percurso que exigiu coragem, persistência e escolhas difíceis — e que devem ser reconhecidos.
Mas reconhecer os avanços não significa considerar concluído o trabalho. Pelo contrário: cada reforma bem-sucedida coloca um novo desafio. Como transformar a estabilidade dos indicadores em melhorias que o cidadão reconheça na sua vida quotidiana? A estabilidade macroeconómica é uma condição indispensável, mas não é o destino final. É a fundação sobre a qual se deve construir um crescimento mais diversificado, produtivo e inclusivo.
Para os empresários e investidores, a previsibilidade económica é essencial. Permite planear, avaliar riscos, mobilizar capital e tomar decisões de longo prazo. Para as famílias, porém, a estabilidade só ganha significado pleno quando se traduz em emprego, rendimento, acesso a bens e serviços e perspectivas concretas de futuro. É neste ponto que a política económica encontra a sua medida mais importante: a capacidade de melhorar as condições de vida e ampliar oportunidades em todo o território.
Informação credível, confiança duradoura
Como investigador na área do relato financeiro, considero que a qualidade da informação é também um activo económico. A transparência não deve ser encarada apenas como uma exigência técnica ou institucional. É um factor que influencia a confiança, a qualidade das decisões e a capacidade de atrair investimento.
Informação financeira clara, consistente e credível reduz incertezas. Ajuda os investidores a compreenderem o contexto em que operam, permite aos parceiros avaliar compromissos e resultados e fortalece a relação entre as instituições e a sociedade. Números fiáveis não são apenas uma forma de prestar contas: são uma infraestrutura de confiança.
Esta dimensão será particularmente importante na próxima fase do desenvolvimento angolano. À medida que o país procura diversificar a economia, captar investimento e integrar-se em cadeias regionais de valor, a qualidade da informação e das instituições torna-se parte da sua competitividade. Confiança e previsibilidade não se decretam; constroem-se com consistência, transparência e resultados verificáveis.
Produção, logística e território
A diversificação económica exige mais do que a identificação de sectores com potencial. Exige condições para produzir, transformar e escoar bens de forma competitiva. Por isso, a logística ocupa um lugar central na agenda do desenvolvimento.
O Corredor do Lobito demonstra a importância de ligar infra-estruturas, mercados e actividade económica. Mas a ambição de Angola não deve ficar limitada a um único eixo. É necessário olhar também para o Sul do país e criar condições para que o seu potencial se traduza em investimento, empresas e emprego.
Programas estruturantes para esta região, como o Programa Estruturante do Sul de Angola, merecem ser retomados e dinamizados. O Sul reúne oportunidades na agricultura, na pecuária, na mineração e no turismo, mas muitos desses recursos continuam subaproveitados. Converter potencial em actividade económica requer planeamento, infra-estruturas, financiamento, qualificação e uma articulação eficaz entre o Estado e o sector privado.
Para os empresários, esta agenda representa uma oportunidade concreta: desenvolver negócios em sectores produtivos, criar parcerias locais e participar na construção de novas cadeias de valor. Para o país, significa ampliar a base económica, reduzir vulnerabilidades e distribuir melhor os benefícios do crescimento.
Um corredor para ligar o Sul aos mercados regionais
É neste contexto que proponho uma visão complementar: desenvolver um novo corredor a partir do Caminho de Ferro de Moçâmedes, ligando o Porto do Namibe à Namíbia e, através desta, à África do Sul.
Esta ligação poderia aproximar as empresas do Sul dos mercados regionais e facilitar o transporte de mercadorias. Mais do que uma solução logística, seria uma plataforma para estimular investimento, fixar empresas, criar emprego e reforçar a integração económica de Angola com os países vizinhos.
A proposta tem também uma dimensão estratégica. A adesão de Angola à Zona de Comércio Livre da SADC deve traduzir-se em oportunidades reais para quem produz e investe no país. Para isso, não basta participar nos acordos: é necessário garantir que as empresas angolanas conseguem aceder aos mercados, cumprir os requisitos comerciais e competir com eficiência. Um corredor funcional, articulado com a produção local e com os portos, pode contribuir para dar conteúdo económico a essa integração.
Naturalmente, a concretização desta visão exige estudos de viabilidade, coordenação institucional, investimento e diálogo com os sectores empresariais e as comunidades envolvidas. Mas pensar a conectividade do Sul numa escala regional é um passo importante para que a integração deixe de ser apenas uma aspiração e se transforme em actividade económica.
O próximo capítulo
Angola deu passos importantes na consolidação da estabilidade macroeconómica e no reforço da sua credibilidade. O próximo capítulo, porém, será avaliado pela capacidade de converter esses avanços em oportunidades duradouras: mais produção, investimento produtivo, empregos e desenvolvimento distribuído por todo o território.
A estabilidade dos indicadores é indispensável. Mas a confiança constrói-se quando os cidadãos percebem os seus efeitos e quando as empresas encontram condições para crescer e competir. O desafio é fazer com que o progresso económico se traduza em valor para o país inteiro — do Norte ao Sul, dos centros urbanos às comunidades do interior.
É nessa passagem, da estabilidade dos números à confiança na vida de cada cidadão, que se jogará uma parte decisiva do futuro económico de Angola.
Edição João Marcelo de Souza


