Sábado, Setembro 26, 2026

Osvaldo Isata: “O turismo local precisa de comunidade, capacitação e projectos sólidos”

O consultor geopolítico e professor defende que o turismo só poderá gerar desenvolvimento sustentável quando ligar visitantes, comunidades, financiamento e uma visão estratégica de longo prazo para Angola.

REVISTA EXECUTIVO | Luanda — Para Osvaldo Isata, consultor geopolítico e professor, o desafio de transformar o turismo numa fonte duradoura de desenvolvimento começa pela participação efectiva dos actores locais. No Angola Economic Forum (AEF), o académico defendeu que a actividade turística deve criar uma ligação concreta entre quem visita Angola e quem vive nos territórios que recebem os visitantes.

A ideia vai além de incluir as comunidades nos roteiros turísticos. Pressupõe que estas estejam preparadas para participar na cadeia de valor, aceder a oportunidades de financiamento e transformar recursos locais — da cultura e da natureza à gastronomia e aos serviços — em actividade económica sustentável.

“É importante o envolvimento local dos agentes que participam no turismo”, afirmou Osvaldo Isata. A declaração sintetiza uma questão central para o sector: o crescimento do número de visitantes, por si só, não garante que os benefícios económicos cheguem às comunidades. Para que isso aconteça, é necessário criar condições para que os empreendedores, fornecedores e prestadores de serviços locais participem efectivamente na actividade.

Ligar o visitante à economia local

O turismo pode assumir um papel relevante no desenvolvimento territorial de Angola, sobretudo quando contribui para dinamizar negócios, criar emprego e valorizar os recursos de cada região. Mas esse potencial depende da forma como a actividade é organizada.

Se os visitantes consumirem bens e serviços sem uma ligação efectiva às empresas e às comunidades locais, uma parte significativa do valor gerado poderá não permanecer nos territórios visitados. Integrar os actores locais nas cadeias de fornecimento — incluindo alojamento, restauração, artesanato, agricultura, transportes e outros serviços — é, por isso, uma condição importante para ampliar o impacto económico do turismo.

Esta integração exige mais do que iniciativas isoladas. Requer organização, capacitação e articulação entre comunidades, operadores turísticos, empresas, instituições financeiras e entidades públicas. Exige também mecanismos de acompanhamento e transparência, para que os recursos destinados ao sector sejam aplicados com eficácia e contribuam para resultados concretos.

Na perspectiva de Isata, o turismo deve ser pensado como uma actividade económica capaz de gerar oportunidades para além da experiência do visitante. A sua contribuição mede-se também pela capacidade de fortalecer negócios locais, estimular o empreendedorismo e criar fontes de rendimento duradouras para as populações.

Uma boa ideia precisa de se tornar um projecto financiável

A necessidade de transformar o potencial local em iniciativas concretas ganha particular importância quando se fala do empreendedorismo jovem. Questionado sobre os jovens que têm ideias para desenvolver projectos turísticos nas suas comunidades, mas não dispõem de garantias financeiras, Osvaldo Isata referiu a existência de programas públicos de incentivo, capacitação e financiamento.

O acesso a esses instrumentos, contudo, depende também da preparação dos proponentes e da consistência dos projectos. Para o professor, uma proposta bem estruturada é essencial para que possa ser avaliada por instituições públicas ou privadas e reunir condições para receber apoio.

“O importante é termos um projecto sólido e bem construído, para depois submetê-lo e merecer o apoio financeiro de uma instituição pública ou privada.”

A mensagem é clara para os jovens empreendedores: uma ideia promissora é apenas o ponto de partida. Para atrair financiamento e avançar para a execução, precisa de ser traduzida num projecto com objectivos definidos, viabilidade económica, impacto local e capacidade de concretização.

Isata destacou, neste contexto, a importância do trabalho conjunto entre o Executivo e as instituições financeiras, incluindo o Standard Bank e outras entidades do sistema bancário. A articulação entre políticas públicas, financiamento e iniciativa empresarial pode ser determinante para transformar propostas em negócios capazes de criar valor e emprego.

O AEF e a importância de pensar a longo prazo

Na avaliação de Osvaldo Isata, o Angola Economic Forum afirma-se como um espaço de reflexão de alto nível não apenas pela qualidade dos participantes, mas também pela relevância dos temas em debate. O encontro permite analisar os desafios e as oportunidades de Angola numa perspectiva geopolítica, diplomática e económica.

Essa leitura de longo prazo é particularmente pertinente para sectores como o turismo, cujo desenvolvimento depende de decisões articuladas em várias frentes. Infra-estruturas, qualificação profissional, financiamento, promoção internacional e participação das comunidades não podem ser tratados como questões independentes. O seu impacto depende da forma como se complementam.

A ambição, defendeu o consultor, deve ser preparar decisões e investimentos com capacidade para produzir resultados nos próximos 10, 15 e 20 anos. Para o turismo, isso significa construir uma estratégia que não se limite a atrair visitantes, mas que procure assegurar que a actividade gera valor no país e nos territórios onde se desenvolve.

A competitividade do sector dependerá, assim, da capacidade de converter os recursos e as características de Angola em experiências sustentáveis, negócios viáveis e oportunidades para as novas gerações. Para alcançar esse objectivo, será fundamental aproximar comunidades, empreendedores, empresas, instituições financeiras e decisores públicos em torno de projectos sólidos e de uma visão comum.

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