Economista e docente universitário defende que a estabilidade fiscal deve caminhar com políticas ajustadas à realidade angolana, à produção nacional e ao bem-estar das famílias.
No Angola Economic Forum 2026, a intervenção do economista e docente universitário Francisco Esteves trouxe para o centro do debate uma questão essencial: Angola precisa de reformas económicas, mas essas reformas não podem ser aplicadas como uma receita universal, desligada da estrutura produtiva, social e institucional do país.
O AEF, realizado em Luanda sob o lema “Angola, Diplomacia Económica e Integração Regional: Novas Parcerias para o Desenvolvimento Sustentável”, voltou a reunir Estado, sector privado, academia, instituições financeiras e parceiros internacionais para discutir os caminhos da economia angolana.
O país precisa de estabilidade, mas também de crescimento
Francisco Esteves chama a atenção para a necessidade de olhar para a consolidação fiscal com equilíbrio. Controlar a dívida, melhorar a qualidade da despesa pública, combater desperdícios e reforçar a credibilidade das finanças públicas são objectivos importantes. Mas a política económica deve igualmente proteger a capacidade produtiva das empresas, o emprego e o rendimento das famílias.
“O desafio não está em escolher entre rigor financeiro e desenvolvimento. Está em construir uma estratégia que consiga assegurar os dois.”
Em economias como a angolana, marcadas pela dependência das receitas petrolíferas, pela forte presença das importações e por elevados níveis de informalidade, cada decisão fiscal, monetária ou cambial tem um impacto directo no custo de vida, na actividade empresarial e na criação de postos de trabalho.
Por isso, defende-se uma leitura mais próxima da realidade nacional: reformas estruturais, sim — mas orientadas para criar produção, aumentar a competitividade e gerar oportunidades.
“Não há desenvolvimento sem uma base produtiva forte”
A diversificação económica precisa de sair definitivamente do campo das intenções. Para Francisco Esteves, o debate deve concentrar-se na forma como Angola pode produzir mais, importar menos e transformar localmente uma maior parte dos seus recursos.
A agricultura, a indústria agro-alimentar, as pescas, a logística, a construção, a economia digital, a formação profissional e o turismo têm capacidade para criar emprego e riqueza em várias províncias. Mas isso requer políticas públicas coerentes, financiamento adaptado à realidade das empresas e um ambiente em que seja possível produzir com custos previsíveis.
A grande questão é simples: como transformar potencial em negócio, negócio em emprego e emprego em melhoria efectiva da vida dos angolanos?
O papel do Estado e do sector privado
O Estado tem responsabilidade na criação das condições essenciais: energia, estradas, água, formação, justiça económica, simplificação administrativa e regras claras. O sector privado, por sua vez, deve assumir o papel de investir, inovar, produzir e conquistar mercados.
“Mas esta relação tem de ser construída com confiança.”
Quando uma empresa não consegue financiamento, enfrenta custos logísticos demasiado altos ou encontra obstáculos administrativos para trabalhar, a diversificação fica comprometida. Quando um jovem não encontra formação ligada às necessidades reais do mercado, o país perde talento. Quando o investimento produtivo é adiado, perde-se emprego e arrecadação futura.
A economia angolana precisa, por isso, de uma agenda que ligue as grandes reformas macroeconómicas às dificuldades concretas de quem produz.
Uma relação mais crítica e construtiva com as instituições internacionais
O debate com o Fundo Monetário Internacional e outros parceiros multilaterais é relevante para Angola. O país beneficia de conhecimento técnico, acompanhamento macroeconómico e cooperação internacional. Contudo, a mensagem defendida por Francisco Esteves é a de que cada recomendação deve ser analisada à luz das condições internas do país.
As políticas de consolidação fiscal não podem ignorar as diferenças entre economias, nem desconsiderar os efeitos sociais de medidas que afectam preços, rendimentos e actividade empresarial. O objectivo das reformas deve ser tornar Angola mais forte, menos vulnerável e mais capaz de crescer com os seus próprios recursos.
No AEF, Francisco Esteves reforçou precisamente este ponto: a estabilidade macroeconómica é necessária, mas deve ser acompanhada por políticas capazes de proteger o crescimento e o bem-estar da população.
Universidade, conhecimento e políticas públicas
Enquanto docente universitário, Francisco Esteves representa também uma voz importante da academia angolana no debate económico. A universidade não deve estar afastada das decisões estratégicas do país.
Estudos, investigação aplicada, dados fiáveis e pensamento crítico são instrumentos fundamentais para melhorar as políticas públicas. Angola precisa de economistas, investigadores, empresários e decisores a trabalhar mais próximos, com uma visão comum sobre os sectores prioritários e os resultados que se pretendem alcançar.
A formação de capital humano não é um tema secundário. É uma condição para a diversificação, para a produtividade e para a competitividade nacional.
A questão que fica para Angola
A intervenção de Francisco Esteves deixa uma reflexão clara: Angola não precisa apenas de crescer; precisa de saber como cresce, para quem cresce e com que bases vai sustentar esse crescimento.
O país tem recursos, população jovem, localização estratégica e potencial regional. O próximo passo é transformar estas vantagens em produção, emprego qualificado, empresas fortes e maior autonomia económica.
No Angola Economic Forum, a sua mensagem acrescenta uma dimensão essencial ao debate: reformas económicas só serão verdadeiramente bem-sucedidas quando forem tecnicamente sólidas, socialmente responsáveis e construídas a partir da realidade angolana.
Edição João Marcelo de Souza


