A confiança é o primeiro investimento
Formar jovens, aproximar empresas e transformar oportunidades em negócios concretos. Na conversa entre Philippe Strub e Carlos Magalhães, o futuro das relações económicas entre Angola e a Suíça ganhou uma dimensão prática: conhecer melhor o país, construir parcerias credíveis e demonstrar resultados.
Uma parceria internacional começa muito antes da assinatura de um contrato. Começa na forma como se conhece um país, se avalia uma empresa e se constrói confiança. Foi nesse terreno que se desenvolveu o Swiss Talk de 1 de Outubro, no Epic Sana, em Luanda, com Philippe Strub, embaixador designado da Suíça em Angola, numa conversa conduzida por Carlos Magalhães, presidente do Swiss Business Council Angola.
O encontro aproximou diplomacia, experiência empresarial e percurso pessoal. A discussão passou pelas primeiras impressões de Angola, pelas lições de liderança adquiridas em Kiev e pelas condições que podem levar mais empresas suíças a olhar para o mercado angolano. Uma ideia atravessou a conversa: o potencial torna-se convincente quando encontra competência, previsibilidade e capacidade de execução.
Strub apresentou-se em português, assumindo com humor que ainda está a aprender a língua. Carlos Magalhães revelou ter incentivado essa escolha, reconhecendo nela um primeiro gesto de aproximação. Para o diplomata, compreender um país também passa pelo idioma, pela gastronomia, pela música e pelas pessoas.
Há poucas semanas em Angola, destacou o acolhimento recebido, a energia de Luanda e uma juventude capaz de resolver problemas com recursos limitados. Reconheceu igualmente os limites de uma impressão inicial. Chegou com curiosidade e vontade de conhecer uma realidade cuja dimensão humana ultrapassa aquilo que os relatórios conseguem transmitir.
O seu percurso ajuda a compreender essa disposição. Aos 16 anos, imaginava-se piloto militar; mais tarde, seguiu a advocacia, trabalhando também em fusões e aquisições. Aos 34, escolheu a diplomacia como espaço onde poderia reunir capacidades profissionais, interesse pelas línguas e serviço ao seu país.
A experiência mais exigente que trouxe para Luanda foi a passagem de dois anos por Kiev, como chefe adjunto de missão. Recordou uma rotina condicionada por ataques, interrupções de electricidade e dificuldades de aquecimento. Sublinhou, sobretudo, a resiliência das pessoas e a responsabilidade de conduzir uma equipa sob pressão.
Dessa experiência retirou uma lição com alcance empresarial: “Esperar a certeza total é uma forma elegante de nunca decidir.” Liderar, explicou, exige preparação, capacidade de decidir com informação incompleta, comunicação clara e disponibilidade para corrigir o rumo. Exige também proteger as pessoas que tornam essas decisões possíveis.
A conversa ganhou particular densidade quando Carlos Magalhães colocou uma questão central para a aproximação económica: como despertar maior interesse das empresas suíças por Angola?
O presidente do Swiss Business Council chamou a atenção para o conhecimento limitado do país entre muitos empresários suíços e para a necessidade de dar visibilidade às empresas que já trabalham com sucesso no mercado angolano. Referiu, nesse contexto, a Trafigura e o Corredor do Lobito.
Strub respondeu com três palavras: “Pagamento, previsibilidade e parceiros.”
Por detrás delas estão perguntas concretas: como se processam as transferências de recursos? Quanto tempo demora um procedimento administrativo? Quem é o parceiro local? Cumpre os compromissos? O quadro legal funciona, na prática, como está previsto?
A resposta mostrou que a promoção do investimento precisa de caminhar com a experiência efectiva de quem investe. Regras estáveis, interlocutores competentes e compromissos cumpridos ajudam a transformar interesse em decisões.
Também a comunicação tem um papel económico. O diplomata recomendou apresentar histórias empresariais com números, prazos e resultados, capazes de demonstrar como uma parceria funcionou. Defendeu ainda que essa informação chegue aos decisores em línguas que utilizam, destacando o inglês e, quando possível, o alemão, o francês ou o italiano.
Para Angola, esta é uma oportunidade de comunicar melhor o trabalho das suas empresas. Uma parceria documentada permite mostrar capacidade de produção, qualidade de gestão e resultados verificáveis. A credibilidade construída por uma empresa pode abrir caminho a outras.
Um dos momentos mais relevantes do encontro surgiu quando a conversa se voltou para aquilo que a experiência suíça pode oferecer à juventude angolana.
Strub destacou o sistema de formação profissional que combina aprendizagem na escola e na empresa. Sublinhou que a sua adaptação exige atenção à realidade local. O princípio, porém, é claro: aproximar o conhecimento das exigências concretas do trabalho.
Na leitura empresarial deste encontro, essa ligação merece especial atenção. A formação ganha valor quando permite operar equipamentos, melhorar processos, assegurar qualidade e desenvolver serviços de que o mercado precisa. Para os jovens empreendedores, significa também adquirir competências para organizar uma empresa, calcular custos e cumprir aquilo que prometem aos clientes.
O diplomata identificou outros domínios de possível cooperação: engenharia hidráulica, gestão da água, agroindústria, indústria, transporte ferroviário e turismo de montanha. São áreas que permitem discutir parcerias assentes em conhecimento técnico, formação e capacidade de execução.
Carlos Magalhães trouxe igualmente para a conversa a perspectiva do empresário angolano que procura um parceiro na Suíça. Chamou a atenção para a frequência com que essa aproximação começa por um pedido de financiamento.
A recomendação de Strub foi chegar com um plano de negócios preparado para responder às perguntas do potencial parceiro. Identificou a Embaixada de Angola em Berna e a Switzerland Global Enterprise como pontos de contacto a considerar.
A confiança empresarial, acrescentou, constrói-se através de comportamentos verificáveis: entregas dentro dos prazos, contabilidade transparente e comunicação directa, incluindo quando surgem dificuldades. Informar atempadamente sobre um problema faz parte da responsabilidade de uma parceria.
Ao Swiss Business Council Angola atribuiu uma função particularmente interessante: traduzir culturas empresariais. Compreender expectativas, esclarecer formas de trabalhar e ajudar as empresas a encontrar interlocutores adequados pode reduzir a distância entre dois mercados.
Essa função pode assumir formas concretas: contactos verificados, encontros entre empresas do mesmo sector e diálogo com as autoridades sobre os obstáculos que afectam os negócios. A conversa conduzida por Carlos Magalhães mostrou precisamente a importância dessa ligação entre conhecimento do terreno e acesso a redes internacionais.
Strub, apoiando-se também na sua experiência anterior como advogado empresarial, afirmou a disponibilidade da embaixada para receber empresas e acompanhar estas questões.
No final, regressou à descoberta pessoal de Angola: conhecer as paisagens, experimentar a gastronomia, ouvir música e surfar em Caboledo. Essa curiosidade completa o perfil de um diplomata que pretende compreender o país através da vida quotidiana e do contacto com as pessoas.
Para a Revista Executivo, a oportunidade revelada por este encontro está na ligação entre três dimensões: a energia dos jovens, a competência das empresas e a confiança entre parceiros. É nessa ligação que a cooperação Angola–Suíça pode ganhar profundidade — formando profissionais, desenvolvendo negócios e construindo resultados que mereçam ser conhecidos além-fronteiras.
Edição João Marcelo de Souza
Versão em Inglês
ANGOLA & SWITZERLAND | EXECUTIVO SPECIAL REPORT
Trust Is the First Investment
At the Swiss Talk in Luanda, Philippe Strub and Carlos Magalhães explored the foundations of a deeper economic relationship: skilled people, credible partners and businesses that turn opportunity into results.
Long before a contract is signed, an investor begins to form a judgement about a country, its companies and the people behind them. Confidence develops through conversations, practical experience and commitments honoured. That was the substance of the Swiss Talk held on 1 October at the Epic Sana in Luanda, bringing together Philippe Strub, Switzerland’s Ambassador-designate to Angola, and Carlos Magalhães, President of the Swiss Business Council Angola.
Their conversation moved comfortably between diplomacy, business and personal experience. It offered an early impression of the new Swiss representative and a practical discussion of what could bring the two economies closer.
Strub spoke in Portuguese, acknowledging with humour that he was still learning the language. Magalhães revealed that he had encouraged him to make the effort. It was a small gesture with considerable diplomatic value: an expression of interest in meeting a country on its own terms.
Only a few weeks into his stay, Strub described the welcome he had received, Luanda’s energy and the resourcefulness of its young population. He was careful about drawing conclusions so early. His approach was one of curiosity, informed by the conviction that understanding a country requires contact with its people.
His route to diplomacy was equally revealing. At sixteen, he imagined becoming a military pilot. He later pursued law, including work in mergers and acquisitions, before entering diplomacy at thirty-four. The profession brought together his legal experience, interest in languages and desire to serve Switzerland.
The most demanding experience he brought to Luanda was his two-year posting in Kyiv as Deputy Head of Mission. He recalled daily life shaped by attacks, electricity shortages and disrupted heating. Above all, he spoke of the resilience of his colleagues and the responsibility of leading people under pressure.
One lesson carried particular relevance for the business audience: “Waiting for total certainty is an elegant way of never making a decision.”
Leadership, he explained, requires preparation, decisions made with incomplete information, clear communication and a willingness to adjust course. It also requires protecting the team. People perform better when they know those leading them will take responsibility.
The discussion turned to Angola’s commercial prospects when Magalhães raised a question central to the Council’s work: how can more Swiss companies be encouraged to take a serious look at the Angolan market?
He pointed to the limited familiarity with Angola among many Swiss businesspeople and the importance of making existing success stories more visible. Among the examples mentioned were Trafigura and the Lobito Corridor.
Strub framed investors’ concerns in three words: “Payment, predictability and partners.”
Each carries a practical question. How can funds be transferred? How long do administrative procedures take? Who is the local counterpart? Do commitments hold? Does the legal framework operate in practice as expected?
These are the details through which a market earns confidence. Stable rules, capable counterparts and reliable execution give investors the grounds to move from initial interest to a commercial decision.
Communication matters, too. Strub encouraged Angola to present business stories supported by figures, timelines and measurable outcomes. A successful partnership, properly documented, allows another company to assess what might be possible.
He also emphasised the importance of reaching decision-makers in languages they use: English, and where possible German, French or Italian.
For Angola’s companies, this opens a valuable avenue for international visibility. Evidence of production capacity, sound management and successful delivery can travel well beyond the original transaction. The credibility established by one enterprise can make the next introduction easier for others.
One of the evening’s most compelling themes concerned what Swiss experience could offer Angola’s young population.
Strub highlighted vocational education that combines learning in school with training inside a company. He stressed that such a system must be adapted thoughtfully to local circumstances. Its central principle is to bring education into close contact with the demands of working life.
For Angola, the commercial relevance is considerable. Training gains practical value when it enables people to operate equipment, improve processes, maintain quality and deliver services that customers need.
For young entrepreneurs, those capabilities extend to organising a business, understanding costs and fulfilling commitments. Technical competence and business discipline can develop together, giving emerging companies stronger foundations for growth.
Strub also identified potential areas of cooperation in hydraulic engineering, water management, agro-industry, manufacturing, rail transport and mountain tourism. These provide scope for partnerships built around technical knowledge, professional development and operational expertise.
Magalhães then brought the discussion to the Angolan entrepreneur seeking a Swiss partner. He observed how frequently those approaches begin with a request for financing.
Strub’s advice was to arrive with a business plan sufficiently developed to anticipate a prospective partner’s questions. He identified the Angolan Embassy in Bern and Switzerland Global Enterprise as points of contact to consider.
His wider message concerned the everyday evidence of reliability: delivery on time, transparent accounts and direct communication, including when difficulties arise. An early explanation of a problem allows partners to respond and preserves the conditions for trust.
That places an important responsibility on the companies themselves. International credibility develops through repeated performance, supported by clear information and accountable management.
Asked how the Swiss Business Council Angola could strengthen the relationship, Strub described a role that reaches into the practical realities of doing business: translating business cultures.
Understanding expectations, explaining working practices and helping companies find suitable counterparts can reduce uncertainty on both sides. He suggested concrete activities, including verified business contacts, sector-focused introductions and engagement with the authorities over obstacles reported by companies.
Magalhães’s questions reflected the importance of that intermediary role. Connecting two markets requires an understanding of their institutions, commercial habits and decision-making processes, alongside the ability to bring the right people into the same conversation.
Drawing on his own background in commercial law, Strub expressed his willingness to engage with businesses and made clear that the embassy would be open to them.
The evening closed on a more personal note. The diplomat spoke of his wish to discover Angola’s landscapes, experience its food, enjoy its music and take his surfboard to Caboledo. For him, language and culture are part of understanding how people live, relate to one another and see the world.
That curiosity gives a human dimension to the economic discussion. Strong commercial relationships are sustained by people willing to listen, learn and work together over time.
For Executivo, the opportunity emerging from the conversation lies in connecting the energy of Angola’s young people with professional skills, capable businesses and trusted international partners. The promise of closer Angola–Switzerland relations can take shape in a young technician’s first placement, a company’s first successful export order or a partnership strengthened by another commitment fulfilled.
Each is a result worth building—and a story worth taking to the world.


