Um torneio de grande dimensão e uma sucessão de momentos positivos nas redes sociais deram à imagem dos Estados Unidos um impulso significativo no plano internacional. Contudo, preocupações relacionadas com a intervenção política, dificuldades na obtenção de vistos e episódios controversos acabaram por ensombrar, em alguns momentos, o espectáculo dentro das quatro linhas, num contexto em que as fronteiras entre política e desporto se tornaram cada vez mais ténues.

Um estudo anual sobre a democracia, divulgado em Maio, revelou que a percepção global dos Estados Unidos durante a administração de Donald Trump tinha caído para níveis inferiores aos registados pela Rússia. A política de repressão da imigração, a aplicação de tarifas consideradas excessivas e a guerra conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão contribuíram para fragilizar a posição de Washington aos olhos da comunidade internacional.
Apesar de a popularidade do Presidente norte-americano no seu próprio país ter atingido, no início do torneio, o nível mais baixo do seu segundo mandato, uma série de momentos virais nas redes sociais ajudou a melhorar — ainda que temporariamente — a percepção mundial sobre os Estados Unidos e os seus cidadãos.
A relação de simpatia criada entre a claque escocesa Tartan Army e a cidade de Boston tornou-se numa das histórias mais positivas da competição. O mesmo aconteceu com a inesperada aproximação entre a Argélia e Lawrence, no Kansas, cidade que acolheu o estágio da selecção argelina.
Estes episódios, aparentemente simples, tiveram um impacto relevante na construção de uma imagem mais acolhedora dos Estados Unidos. Para muitos observadores, a competição funcionou como uma plataforma de diplomacia pública, aproximando comunidades, cidades e adeptos de diferentes origens através de uma linguagem comum: o futebol.
Um novo entusiasmo pelo futebol

Os próprios norte-americanos também ficaram surpreendidos com a dimensão internacional do futebol. As audiências televisivas registaram resultados expressivos, enquanto os festivais oficiais de adeptos atraíam multidões em várias cidades.
A Fox Sports estabeleceu novos recordes de audiência na história da Copa do Mundo, com uma média de cinco milhões de espectadores norte-americanos por jogo na fase de grupos — um aumento de 92% em relação à edição realizada no Qatar, há quatro anos.
“É evidente que o futebol despertou uma forte emoção nos Estados Unidos e envolveu milhões de pessoas que, anteriormente, não eram grandes adeptos da modalidade”, afirmou Leigh Steinberg, advogado e agente ligado à selecção norte-americana durante a última edição da Copa do Mundo disputada nos Estados Unidos, em 1994, numa declaração à Reuters enquanto a equipa norte-americana avançava para a fase eliminatória.
Nas redes sociais, a percepção de que o torneio estava a aproximar os Estados Unidos do resto do mundo foi resumida numa publicação que se tornou viral. “A Copa do Mundo é os Estados Unidos a organizar uma grande festa do pijama com os primos que nunca vemos, porque os nossos pais estão desavindos”, escreveu o utilizador da rede X, @JamelleMyBelle.
A frase, carregada de humor, sintetizou a forma como muitos adeptos encararam a competição: uma oportunidade para os norte-americanos conviverem com povos e culturas que, apesar da distância geográfica e política, partilham uma paixão global pelo desporto.
Na final de domingo, quando Donald Trump entrou no relvado sorridente para entregar o troféu, apesar da onda de assobios e vaias ouvida nas bancadas do estádio de New Jersey, os organizadores norte-americanos mostraram-se preparados para reivindicar uma vitória também no plano da imagem internacional.
“A América apaixonou-se pela Copa do Mundo, e o mundo apaixonou-se pelos Estados Unidos da América”, declarou Andrew Giuliani, director executivo da força-tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo.
Para os responsáveis políticos e empresariais envolvidos na organização, a declaração traduzia a expectativa de que o torneio pudesse funcionar como uma montra global para os Estados Unidos, reforçando o turismo, os investimentos, a actividade económica e a influência cultural do país.
Trump concentra os holofotes na Copa do Mundo
Apesar dos ganhos de imagem, vários incidentes prejudicaram a reputação dos Estados Unidos e revelaram os riscos de utilizar um evento desportivo de dimensão global como instrumento de projecção política.

A interacção tensa entre um agente da polícia de Dallas e a selecção egípcia ganhou destaque nos meios de comunicação social. Ao mesmo tempo, um comentário infeliz de uma repórter televisiva norte-americana — que afirmou não conseguir localizar a Bósnia e Herzegovina num mapa — afectou o ambiente que antecedeu o jogo dos oitavos-de-final entre um dos países anfitriões e a selecção dos Balcãs.
O envolvimento de Trump numa das maiores controvérsias do torneio, relacionada com a suspensão do cartão vermelho mostrado ao avançado norte-americano Folarin Balogun, provocou críticas e indignação. A FIFA insistiu que o Presidente não teve influência na decisão, mas a percepção pública foi diferente, sobretudo devido à visibilidade política que o caso adquiriu.
O episódio levantou questões importantes sobre a autonomia das instituições desportivas e sobre a possibilidade de figuras políticas influenciarem decisões com impacto directo na competição. Para os críticos, a controvérsia demonstrou como a presença presidencial pode transformar uma questão disciplinar num assunto de dimensão internacional.
Vistos e acesso expõem contradições
Outro dos principais desafios esteve relacionado com o acesso ao país. Embora os Estados Unidos tenham prometido abrir as portas ao mundo, as autoridades mantiveram restrições para alguns adeptos, recusando vistos a cidadãos de várias nações, segundo organizações de defesa dos direitos humanos.
A situação criou uma contradição difícil de ignorar: ao mesmo tempo que o país procurava apresentar-se como anfitrião aberto, moderno e cosmopolita, milhares de adeptos enfrentavam barreiras administrativas e migratórias para assistir aos jogos.
Para o sector empresarial e para os promotores do turismo, esta questão assume particular importância. Um evento desta dimensão não se mede apenas pela audiência televisiva ou pelo número de bilhetes vendidos. Mede-se também pela capacidade de garantir mobilidade, hospitalidade e confiança aos visitantes internacionais — factores essenciais para transformar a exposição mediática em benefícios económicos duradouros.
Jules Boykoff, autor do livro Red Card: The 2026 World Cup, Sportswashing, and the FIFA Greed Machine, afirmou que a administração Trump “transformou” o torneio num instrumento político.
“O resto do mundo está a pensar: isto está a colocar a justiça em risco”, disse Boykoff aos jornalistas durante uma conferência de imprensa da Sport & Rights Alliance. “Mas, internamente, ele pode dizer: ‘Vejam, sou um homem forte que consegue fazer com que estas instituições internacionais se submetam à minha vontade’.”
Diplomacia desportiva sob escrutínio
A Copa do Mundo demonstrou, assim, a força do desporto como ferramenta de aproximação entre povos, mas também evidenciou os seus limites quando é colocado ao serviço de disputas políticas.
A competição ofereceu aos Estados Unidos uma oportunidade rara para reconstruir a sua imagem externa através de experiências positivas, histórias de amizade e momentos espontâneos de celebração. Cidades anfitriãs, empresas, instituições públicas e comunidades locais beneficiaram da atenção internacional e da presença de milhões de visitantes.

Contudo, a diplomacia desportiva exige coerência. A hospitalidade exibida nos estádios precisa de ser acompanhada por políticas de acesso, respeito institucional e tratamento equitativo dos adeptos. Caso contrário, a mensagem de abertura corre o risco de ser anulada por episódios de exclusão, interferência ou controvérsia.
Para os executivos e decisores africanos, incluindo os de Angola, o caso norte-americano oferece uma lição relevante: grandes eventos internacionais podem impulsionar a reputação de um país, atrair investimento, promover sectores estratégicos e fortalecer relações diplomáticas. Porém, esses benefícios dependem de uma organização consistente, de uma comunicação institucional coordenada e de uma experiência positiva para todos os participantes.
No final, a Copa do Mundo conseguiu suavizar parcialmente a imagem dos Estados Unidos no exterior, mas não eliminou as tensões que marcaram a administração Trump. O torneio revelou o poder do futebol para aproximar sociedades — e, simultaneamente, a facilidade com que a política pode voltar a ocupar o centro do palco.
“The Great American Sleepover” (A Grande Festa do Pijama Americana) é um termo viral que surgiu nas redes sociais para descrever a atmosfera cultural leve, divertida e acolhedora nos Estados Unidos durante a Copa do Mundo de 2026. A expressão nasceu de uma publicação viral que comparou o torneio a “uma grande festa do pijama com os primos que você ama, mas raramente vê porque os pais de vocês não se dão bem”
Por João Marcelo de Souza


