Representante Residente do Fundo Monetário Internacional defende que o país deve reduzir a exposição ao ciclo petrolífero e acelerar reformas capazes de criar crescimento sustentável.
No Angola Economic Forum 2026, o debate sobre o futuro económico do país ganhou uma dimensão particularmente relevante com a intervenção do Dr. Victor Duarte Lledó, Representante Residente do Fundo Monetário Internacional (FMI) para Angola.
Realizado em Luanda, de 22 a 25 de Setembro, o AEF decorre sob o lema “Angola, Diplomacia Económica e Integração Regional: Novas Parcerias para o Desenvolvimento Sustentável”. A edição é organizada pela Kwanza Economics, em parceria com a PetroAngola, e reúne decisores públicos, empresários, instituições financeiras, académicos e parceiros internacionais.
Estabilidade não pode depender apenas do petróleo
A principal mensagem deixada pelo representante do FMI é clara: Angola precisa de quebrar, de forma estrutural, a dependência do petróleo.
A economia angolana continua vulnerável às oscilações da cotação internacional do crude. Quando o preço sobe, aumentam as receitas públicas, melhora o acesso ao financiamento e cresce a capacidade de despesa do Estado. Quando desce, regressam as pressões sobre o Orçamento, a dívida, a taxa de câmbio e o crescimento económico.
É precisamente este ciclo que Angola tem de ultrapassar. A estabilidade macroeconómica é indispensável, mas não pode ser entendida como um fim em si mesma. Deve ser a base para uma economia mais produtiva, mais diversificada e capaz de gerar emprego duradouro.
O desafio é transformar reformas em resultados concretos
Nos últimos anos, Angola avançou em matérias importantes de consolidação fiscal, política monetária e gestão macroeconómica. O próprio FMI reconhece que a actividade não petrolífera se manteve dinâmica, que a inflação tem vindo a desacelerar e que houve melhoria no acesso aos mercados. Mas alerta que o ambiente externo favorável não deve abrandar o ritmo das reformas.
A questão decisiva passa agora por transformar esses avanços técnicos em resultados que cheguem à economia real:
- mais empresas competitivas;
- maior produção nacional;
- exportações não petrolíferas;
- emprego qualificado para os jovens;
- acesso ao crédito para pequenas e médias empresas;
- melhor ambiente para o investimento privado;
- serviços públicos mais eficientes e transparentes.
A diversificação não acontece apenas com discursos ou planos. Exige infra-estruturas, formação, previsibilidade cambial, regras claras, justiça económica e capacidade de execução.
Sector privado no centro da nova etapa
Para Angola crescer de forma sustentável, o Estado deve continuar a garantir estabilidade, regulação e investimento estratégico, mas o sector privado tem de assumir um papel cada vez maior na criação de riqueza.
Agricultura, pescas, indústria transformadora, logística, turismo, energia, economia digital e serviços especializados podem ser motores de uma nova economia angolana. O objectivo não é substituir imediatamente o petróleo, mas usar as receitas e a experiência acumulada para construir sectores que sobrevivam e cresçam para além dele.
É também aqui que a diplomacia económica e a integração regional, temas centrais do AEF, ganham importância. Angola possui posição geográfica, recursos, mercado e ligações regionais que podem transformar o país numa plataforma de comércio, produção e serviços para a África Austral.
Disciplina fiscal, confiança e crescimento inclusivo
A mensagem do FMI coloca no centro do debate três exigências que devem caminhar juntas: responsabilidade fiscal, prudência monetária e flexibilidade cambial.
Estas medidas são fundamentais para proteger a economia de choques externos, reduzir vulnerabilidades e reforçar a confiança de investidores, empresários e cidadãos. Contudo, o grande desafio político e económico será garantir que a disciplina macroeconómica seja compatível com a necessidade de investimento social, emprego e desenvolvimento territorial.
Angola não pode escolher entre estabilidade e crescimento. Precisa dos dois.
A estabilidade protege o país das crises. O crescimento inclusivo cria oportunidades, reduz desigualdades e sustenta a paz social. O equilíbrio entre estas duas dimensões será determinante para a próxima fase da economia nacional.
Uma relação FMI–Angola orientada para o futuro
A presença de Victor Duarte Lledó no AEF acontece num momento em que a relação entre Angola e o FMI entra numa fase de avaliação e aprendizagem. O Fundo concluiu recentemente uma missão de acompanhamento pós-financiamento, defendendo que a continuidade da consolidação fiscal, uma política monetária prudente e reformas de produtividade são essenciais para reduzir a vulnerabilidade do país.
Mais do que olhar para o FMI como uma instituição associada a momentos de dificuldade, o debate deve centrar-se numa pergunta mais útil: como pode Angola aproveitar conhecimento técnico, cooperação internacional e reformas internas para criar uma economia mais resiliente?
A resposta passa por instituições fortes, confiança entre Estado e empresas, rigor na gestão dos recursos públicos e uma visão nacional que privilegie a produção, o talento e o emprego.
A mensagem para Angola
O AEF 2026 reafirma que Angola está perante uma escolha estratégica: continuar dependente de ciclos externos ou acelerar uma transformação económica baseada em produção, integração regional e investimento privado.
A intervenção do Dr. Victor Duarte Lledó reforça que a diversificação já não pode ser apenas uma ambição. Tem de passar a ser uma prioridade executada, medida e sentida pelas empresas e pelas famílias.
Edição João Marcelo de Souza


